Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Ácido Cítrico

textos dispersos de Pedro Santo Tirso

Ácido Cítrico

textos dispersos de Pedro Santo Tirso

Três poemas solitários a caminho do Cais do Sodré

Março 25, 2020

British

 

sobre a mesa, repito-me:

uma pint de Guinness e um prego,

por favor, e mais uma pint 

de Guinness e um prego. À minha

 

frente, uma inglesa sardenta,

cabelo de cobre, olhos azuis, e

eu repetindo-me sobre a mesa:

uma pint de Guinness e um prego,

por favor, e escutando as 

conversas em volta, como tem que ser

o rapaz feroz, os velhos habituais e

mais uma pint de Guinness e um prego

 

porque só a repetição permitir apurar

até à medida certa a solidão.

 

São Paulo

 

às quatro da manhã raramente

está aqui alguém, só de passagem.

eu, pelo contrário, gosto de sentar-me

porque o meio da madrugada vai bem

com estas pedras e estes sentimentos

 

mesmo que me recordes o resto

da noite, aqui perto, por ali,

entre os corpos organizados e 

disponíveis, a língua e a conversa

decorada, essa memória

não chega. Nem tu

 

a meu lado sobrevives à 

solidão deste lugar.

 

Ibo

 

alguém querido fazia anos, vestimo-nos

melhor e fomos, como diplomatas

representando o nosso país, à

beira-rio, no consulado. 

comemos

 

e bebemos: festejámos, sobriamente,

claro: não se festeja de outro modo,

quando a atenção está em viagem,

pelos outros

 

estava mais alguém comigo, tu e

o aniversariante, por certo, e um

país inteiro, por exemplo, Moçambique

veio pelo Tejo dentro, à margem

 

e eu dei por mim, sozinho, esgotado

à meia noite, no Cais do Sodré

 

Publicado originalmente na revista A Sul de Nenhum Norte #2 (2011)

 

 

 

Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D