Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Ácido Cítrico

textos dispersos de Pedro Santo Tirso

Ácido Cítrico

textos dispersos de Pedro Santo Tirso

Três árvores

Março 25, 2020

Margarida

 

“Nunca fui capaz de ensaiar 

 as dobras 

 meticulosas na folha branca”

 

A noite continua a parecer-te banal

se não te possui a vontade de

seres arrebatada. Se não houver uma

história, uma versão da tua vida

menos arrumada, simplesmente mais

apaixonante. Apenas para que possas 

desfigurar-te. E seres própria.

Se assim o entenderes.

 

Maria

 

“quando neste lado da fala não há janelas para o silêncio

 fica um arrepio de insónia a escrever vazios”

 

há uma geografia secreta por dentro

dos passos da cidade velha e dos

encontros nos bons bares e nos recantos

das lajes. Bebidas somos um modo

de ser deusas: pagãs, serenas

procurando testemunhar com saciedade

a fraqueza dos homens. As horas

passam no velho relógio do café

e nem por isso desistimos. A boca

aberta continua a ser uma promessa. E

a forma como renegas a poesia faz

de ti o meu amor.

 

Joana

 

“Elk moment

 verzinken we

 en vallen we in het puin.”

 

para ti a linguagem tem que ser ferida

e

nem pensar em curá-la. Tu és um

projecto lento de cicatriz. Antes

um passeio pela gramática do corpo

aberto aos golpes das rosas, veias

e linfa transformadas em alfabeto 

e sintaxe, abertamente afrontando

a carne e o pensamento. Nada disso.

Ao invés, uma pornografia das palavras

nua, gratuita, oferecida e reiterada.

uma linguagem vegetal que se tornou

minério pelas fraquezas do corpo.

 

As angústias ossificam o corpo,

tanto como a linguagem o liberta

 

Ages porque as palavras te excitam

e jogas porque as palavras te conhecem.

 

 

Publicado originalmente na revista A Sul de Nenhum Norte #5 (2012)

Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D