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Ácido Cítrico

textos dispersos de Pedro Santo Tirso

Ácido Cítrico

textos dispersos de Pedro Santo Tirso

Por que é um corvo como uma escrivaninha?

Março 25, 2020

Chapeleiro Maluco

Alice no País das Maravilhas - Lewis Carroll

 

 

O meu cabelo quer um corte

pensei, pela manhã, ao acordar ao espelho.

 

A caminho da barbearia cá do bairro

ocorreu-me

por que é um corvo como uma escrivaninha?

 

Pensei em escrever um tratado,

mas estava atrasado para as aulas

e anotei no caderno

ver Outono em Pequim.

 

Neste estilo duvidoso, 

entre Junho e Outubro

senti uma grande vontade de abrir o externo

e conversar de peito aberto

com toda a gente que passasse.

 

É preciso acordar no fim das regras

e fazer soar as trombetas sem misericórdia 

rumo àquela liberdade verdadeira 

que só recordamos de sonhos e

nos levam por medo de repente

para que não possamos ser inteiros.

 

Que diria, de chávena na mão,

chapéu na cabeça, relógio de bolso,

uns sapatos sem polainas, referidas apenas por 

dever de métrica, e o externo desossado?

Não é fácil ser verdadeiro sem ajuda,

sem chá, ou paipolas, ou outras flores

e uvas.

 

Todas as películas exóticas,

com que se filtram os nossos dias

servem tão-só aquele velho propósito 

conservador

de conservar desmembrando 

os revolucionários gestos com que construímos 

a norma

-lidade.

 

Da regra ao princípio vai uma ponderação 

do caso concreto. Antes assim que assado,

antes um morcego piscando, antes um 

relógio que só é calendário. Antes tudo isto 

do que

não saber como chegámos aos três filhos,

à hipoteca, à carreira precária, à família 

emprestada, às linhas do metro, às férias 

de pacote.

 

Este meu chapéu alto, que guardo no fundo

de um armário esconso no segundo piso de 

uma casa antiga, que já foi prisão e está feita

de tijolo, é só uma metáfora que uso em casamentos.

Significa: há um momento em que nada é verdade,

tudo é permitido, Kripke com Witt, e Carroll com 

Dio. E no fim do peito aberto haverá um silêncio

perfeito (ou outra coisa qualquer) sempre repetindo

que só há ordem se aceitarmos os estrangeiros e

é mais fácil viver se soubermos rodar à mesa.

 

 

 

Publicado originalmente na obra colectiva Persona, editora do Lado Esquerdo (2015)

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