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Ácido Cítrico

textos dispersos de Pedro Santo Tirso

Ácido Cítrico

textos dispersos de Pedro Santo Tirso

O corpo que se constrói

Março 27, 2020

 

 

A casa é o corpo que se constrói,

disseste.

E eu, com as nádegas sobre o lajedo 

da porta principal da casa velha,

fiquei pensando no teu clarão.

 

Apeteceu-me replicar,

que não. 

Que a casa não se constrói,

arrenda-se ou compra-se.

Eu mesmo habito,

um velho primeiro andar,

remodelado,

na Calçada de Sant’ana, 

ali à Baixa,

Largo de São Domingos.

Mas já habitei tantas casas 

por essa Lisboa fora,

sem nunca as ter construído,

nada meu, 

que tenha levantado do chão.

 

Depois, já com as nádegas frias,

do lajedo da porta principal,

da casa velha, na rua acima,

aquietei-me 

levantando-me

rumo ao quintal.

 

Talvez a tua construção seja outra

Não de tijolos e cimento,

estuque e argamassa, 

mas a possibilidade de definirmos 

os órgãos que habitamos,

a pele com que nos vestimos.

A carne que encarnamos.

 

Sentei-me debaixo do limoeiro

do outro lado do lajedo da porta principal

da casa velha, que o avô construiu,

e que o pai reconstruiu e 

que eu agora planeio remodelar,

para ti e teus irmãos,

meu filho.

 

E pensando ainda no teu clarão, 

à medida que atravessei a casa,

e vi ao fundo os livros na biblioteca,

e se assomou pelo nariz à minha nuca

um cheiro a ensopado,

vindo da cozinha, 

concluí que sim.

Que a casa é o corpo que construímos.

 

Não há outra forma,

se o corpo é uma forma que não concebemos,

nem de sortes mandamos.

A casa é a primeira tentação que temos

de nos incorporarmos para além do corpo,

de nos protegermos, defendermos, 

assomarmos,

construindo uma outra carne, 

outras veias, outra linfa,

outro coração batendo e outro 

estômago digerindo, outros rins,

outra espinha e outra hipófise. 

Para desta vez podermos mais,

doermos menos, e tudo o que o corpo 

que nos deram não nos permite

ou nos provoca

nos tira ou nos obriga,

respondi-te, 

sentado, de novo, com as nádegas,

sobre o lajedo frio da porta principal

da casa velha.

 

 

Publicado originalmente na obra colectiva Casa, editora do Lado Esquerdo (2016)

 

 

 

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