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Ácido Cítrico

textos dispersos de Pedro Santo Tirso

Ácido Cítrico

textos dispersos de Pedro Santo Tirso

Licitar

Abril 05, 2020

Quem não gosta de um bom leilão? E se for online ainda é melhor. A comodidade, a tranquilidade, a flexibilidade, a variedade e por aí fora sempre com o sufixo em -ade, queira Deus. Mas melhor, (estão preparados?), leilões de w h i s k y. Sim, leram bem, leilões de whisky. São tão bons que chega a ser irrelevante conseguir efetivamente comprar o que pretendemos. Provavelmente, no nosso subconsciente, nem queremos realmente comprar, queremos apenas acalentar a esperança na obtenção de certo bem que reputamos importante para a nossa felicidade, mas que se esfuma quando estamos perto de consegui-lo (mais propriamente alguns minutos antes do fim da licitação, quando alguém sobe uns 50€ a um preço já de si proibitivo). 

Os leilões de whisky (o meu site preferido é o whiskyauction.com, alemão, como se exige) pressupõem várias competências (como se diz agora) e permitem-nos várias lições. Em primeiro lugar, é importante saber o que procurar. Um leilão de whisky partilha algo com uma atividade de investigação. Por seu turno, investigação implica planeamento. Não é absolutamente necessário, mas aumenta o prazer que se retira do leilão. Imaginemos, por exemplo, que pretendemos adquirir um Yoichi 12 anos. 12 anos. Não é o 10 anos (demasiado banal), não é o 15 anos (quem nos dera), é o 12 anos. O 12 anos não desmerece o bebedor sério. O Yoichi 12 anos é, aliás, o tipo de whisky que devemos ter no nosso armário especial juntamente com o Lagavulin 16 anos ou um Aberlour com a mesma idade. E, convenhamos, o tempo frio está aí. Não queremos ser apanhados desprevenidos com whiskys que se bebem com gelo e fazem lembrar noites frescas de Verão. Ninguém quer isso. Fazendo a investigação adequada, a escolha comprometida, tendo o whisky que merece a nossa luta desenhado no horizonte podemos avançar. Procuramos, encontramos. Lá está ele, em várias garrafas. Vamos para as licitações mais baixas, mas por cautela licitamos também um 15 anos que está com um valor absurdamente baixo (não vai durar muito e dentro de dois dias alguém vai mostrar-nos a nossa pequenez no grande esquema das coisas). Feita a licitação, esperamos. Não ficamos de braços cruzados, aproveitamos o ensejo e vamos investigar um pouco o objeto da nossa procura. Hoje um Yoichi, amanhã um Bruichladdich, assim vamos aproveitando para saber um pouco mais daqueles que nos dão de beber à alma. 

Cada leilão, no meu site preferido, dura um mês, o que dá tempo para várias licitações e contra-licitações até que todos percebemos que já só interessa o dia final. Nesse dia temos de estar perto de uma ligação à internet se queremos ter alguma hipótese. É claro que pode haver logo uma licitação que nos afasta, mas aqui ajuda alguma experiência de poker: até um determinado valor que sabemos estar abaixo do mercado (pelo menos do mercado onde ainda conseguimos encontrar alguns destes whiskys) uma licitação alta pode ter só um efeito psicológico de nos desmoralizar. Nada disso. Se a licitação é alta mas ainda fica abaixo de um valor aceitável para aquele whisky, então é licitar por cima, sem medos, mesmo que por um valor diminuto. Contra-jogada de efeito psicológico, que também não terá grande efeito, mas diverte. 

É possível fazer maus negócios num leilão de whiskys. Claro. Mas é difícil. Desde logo porque se o mau negócio for causado por um whisky de má qualidade em bom rigor é azar e não um mau negócio. Podia acontecer-nos numa compra normal, presencial ou online. Todos as outras hipóteses de maus negócios não têm explicação racional e por isso merecem um lugar especial no nosso coração. Hoje é relativamente fácil fazer benchmarking de preços de whiskys, mesmo dos mais raros, por isso não é difícil perceber quando estamos a licitar acima de um valor aceitável para o mercado. É certo que em casos raros estamos em águas desconhecidas. Por exemplo, queremos um whisky trufado de Islay de um ano específico já um pouco longínquo. Digamos, um Ardbeg de 1982. Mesmo com as maravilhas da internet não é fácil perceber o valor aceitável à data do leilão. E depois há a dimensão afetiva. Quanto estamos dispostos a investir, financeira e sentimentalmente, para podermos deitar mão a um whisky do ano do nascimento da nossa bem-amada? Porém, excetuados estes casos fortuitos, um leilão eletrónico de whisky deixa-nos apenas espaço para maus negócios que aceitamos docemente sabendo que vamos pagar um valor que não devíamos por um whisky que não tem preço para nós. 

Chegado o dia de encerramento do leilão, começamos a olhar para o lugar do armário especial onde vamos colocar a nova garrafa, imaginamos o serão em que o iremos abrir, organizamos na nossa cabeça o encontro de final de noite onde convidaremos aqueles dois amigos capazes de apreciar um Yoichi 12 anos. Ele saberá melhor só por ter sido licitado e ganho. E se o perdermos (como me acontece consecutivamente há seis meses), não perdemos a face: mantém-se o encontro de amigos em torno de um modesto Jameson 16 anos. No próximo mês há mais. E desta vez é que vai ser.

 

Publicado originalmente na revista Bica #3 (2017)

 

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