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Ácido Cítrico

textos dispersos de Pedro Santo Tirso

Ácido Cítrico

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IPA, IPA, Hurra!

Abril 05, 2020

A internet é a melhor anfetamina da humildade. O escritor senta-se em frente ao computador com uma ideia genial, mas num assomo de modéstia resolve googlar o título pensado para a sua crónica. E ei-la, a “Ipa, Ipa, Hurra!”, uma obscura IPA da longínqua e discreta cervejeira brasileira “Froide”. Confesso que googlei já meio convencido que este trocadilho era bom demais para não ter sido já inventado e fico feliz com mais esta coincidência transatlântica na minha vida. Assim, creio que quanto ao tema da minha crónica deste mês estamos conversados: a celebração da IPA. “Uma sugestão diferente para o Verão”, como escreveriam aquelas revistas semanais que tentam sempre fazer tudo parecer espectacular, dos spinners para crianças (look it up) até aos cocktails com ruibarbo (com ruibarbo, por Deus!). Mas no caso, o lugar-comum é apropriado pois dentro da rainha do verão - a cerveja estupidamente gelada - a IPA tem conquistado o meu coração e feito o seu caminho, lá desde as Índias Orientais, pelo meio das cervejeiras artesanais até chegar à I Liga. 

A IPA - India Pale Ale (cujo histórico está bem apanhado na wikipedia, por isso poupem-me) é antes de mais um Ale. E esse é o primeiro aspeto que temos que ter em conta ao pensarmos nela, sobretudo num país em que a maioria das pessoas, mesmo sem o saber, bebe apenas Lager no que toca a tipos de cervejas. A diferença está na temperatura de fermentação. Quente para os Ales, frio para as Lager. Sendo um Ale, é pálido. Ou seja, feito com malte pálido. Pouco mais para dizer aqui. E chegamos então à Índia. Ou dito de outro modo, ao lúpulo. É certo que o nome é India Pale Ale mas o que a Índia nos recorda face a outros Pale Ales é o peso do lúpulo desde o início da sua produção e exportação para a Índia. O que a tornou distinta de outros Pale Ales não foi apenas ter ido para a Índia, mas a Índia ter deixado a sua marca no gosto desta cerveja, frutada e amarga: inicialmente fermentada como vinho para aguentar a viagem até à Índia, foi sendo amaciada para se adaptar ao clima indiano. Eis aqui a beleza da diversidade aplicada ao engenho de bebidas, na linha dos gins tónicos, devido à má relação entre o quinino e a malária, e do sucesso das Sagres Mini em Angola e em outros locais do defunto Império.

India Pale Ale então. Mas India Pale Ale agora? Eis um nome que começou como descrição e é agora uma marca, um nome, um tipo natural, Kripke and all that. Já não quer dizer nada do que quis dizer, quer apenas evocar um passado nostálgico aliado à experimentação da juventude. E por falar disso.

Há uns meses quando provei umas das nossas novas cervejas artesanais dei por mim no Hawaii, o que resultou estranho uma vez que me encontrava no Príncipe Real e a última vez que estive no Hawaii foi há 8 anos. Como não tenho melhor sentido evocatório do que o paladar dei por mim a pensar se teria ou não bebido aquele tipo de cerveja no Hawaii. Olhei para o rótulo e a Sovina dizia IPA. Que seria isto de IPA? Fui investigar a minha ignorância, pela qual desde já me penalizo aqui publicamente, e dei por mim de novo em Kauai perante a descrição da Castaway IPA da Kona Brewing Company (look it up). Afinal, eu sabia o que era uma IPA. Só não sabia que sabia. Foi preciso a loucura das novas cervejas artesanais ter chegado à Europa, e em especial a Portugal, para que recuperássemos o lento declínio em que se encontrava desde o início do século XX a India Pale Ale, que entretanto tinha sido redescoberta pelos americanos. Desde esse dia tenho bebido todas as IPA portuguesas a que tenho conseguido entregar o palato. Para além da Sovina, já provei a Urraca Vendaval da Oitava Colina e a Voragem da Mean Sardine (esta última uma Black IPA!). Ou seja, vou muito no início, tendo em conta as IPA portuguesas que sei existirem, como as da cervejeira Dois Corvos, a letra F da Cervejeira Letra e outras que ainda tenho para descobrir. Muitas são difíceis de encontrar, mesmo procurando, outras esbarram com o meu pouco tempo para as procurar. Mas hei de lá chegar. Aliás, proclamo este verão o verão da IPA! O que me leva ao único ponto importante desta prelecção, a importância da IPA na cultura gastronómica. As grandes já o perceberam. Primeiro a Super Bock com a 1927 Bengal Amber IPA e mais recentemente a Sagras Bohemia IPA. À boleia do sucesso das IPA no setor artesanal e percebendo que é uma ótima cerveja para a canícula, acompanhando bem pratos fortes, ambas lançaram as suas IPA para alargar o espectro de oferta veranil. 

Termino com a resposta à questão óbvia: porquê escolher IPA? Fechemos o círculo, abrindo uma cerveja: a IPA é dos ales mais leves que poderemos beber, o que a aproxima de uma lager, mas há um mundo de diferenças lá dentro a começar pela amargura frutada. Não se pode acompanhar melhor a mudança que o verão sempre promete.

 

Publicado originalmente na revista Bica #2 (2017)

 

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