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Ácido Cítrico

textos dispersos de Pedro Santo Tirso

Ácido Cítrico

textos dispersos de Pedro Santo Tirso

Do bom bebedor, o terror

Março 27, 2020

 

Não há maiores flagelos para o bom bebedor do que a abstinência e o alcoolismo. O bom bebedor está perante um abstémio e um alcóolico com o desespero da tormenta e a ansiedade da calmaria. Sente perturbado aquele equilíbrio que sempre procura na qualidade da bebida, na proporção dos ingredientes, na exata medida do que beber. O bêbado confunde-o, o abstémio merece-lhe pena. Juntos destroçam-no. Chega o bom bebedor a perder a vontade de beber, tal não é a desgraça. Sente como seus os estados extremos daqueles dois arquétipos arcanos. Soluça, contorce-se, ele próprio sentindo assomos de deixar de beber ou de beber tudo. Nada pior. Felizmente, o bom bebedor acaba por acordar deste pesadelo, apercebendo-se que está sentado na sua poltrona bebendo corretos dois dedos de um malte de Speyside com um gota de água do próprio Spey. Medita. 

O alcoólico é à evidência aquele que mais parece aproximar-se do bom bebedor. Visto de fora parece a questão ser apenas de grau, mas não nos deixemos enganar. O grau alcoólico é para o ébrio crónico um baptismo que só acabará com a extrema-unção, já o grau do bom bebedor manifesta-se em opções de enriquecimento civilizacional: quando beber, quanto beber, o que comer a acompanhar, será admissível diluir, e em quê (em quê? em quê?!). O bom bebedor mantém uma relação saudável com a sua bebida, o alcoólico nela adoece pensando que se agiganta. Perde o discernimento da qualidade, da história, dos cultos e ritos, da companhia adequada, da correta postura . Da bebida fica o álcool, como peçonha. O bom bebedor não consegue compreender o apelo solitário do álcool, já o alcoólico vê o mundo através da graduação do volume de éter e nada mais. Há aqui uma confusão entre o prazer de beber e a obrigação de beber que perturba o bom bebedor. É verdade que ambos têm uma percepção aguda do que Joseph Roth chamou “a lenta decadência, a que os bebedores sempre se prestam”, mas por razões completamente diferentes. O alcóolico decai porque o álcool dele se apodera, forçando-o a deixar tudo o resto. Apreciar um bom aperitivo ao cair do sol torna-se para o bêbado ter de beber até cair. O sublime kantiano é para o alcoólico um garrafão de tinto achado por acaso. Já o bom bebedor é lembrado a todo o momento que apenas a partilha da boa bebida com a boa conversa, a boa mesa e a boa cama evitará a decadência latente que está em cada sacar de rolha, em cada carica aberta, em cada mexer de cocktail. É filosoficamente o que separa o alcoólico do bom bebedor: a voragem da decadência. Um cai nela sem remédio nem redenção, o outro percorre-a sem querer deixar-se cair. Isso a ambos os faz sentir vivos.

O abstémio é para o bom bebedor outro bicho, completamente distinto. Oscila entre achá-lo um lamentável ignorante e um pedante dissimulado. Realmente quem não bebe ou não sabe o que está a perder ou está enganando quem queira ser enganado. Eis o que vai na cabeça do bom bebedor quando se preocupa com a figura. Há no abstémio a impossibilidade de completa aceitação. Nem um copo, pergunta o bom bebedor? Não, nem um. Só pode ser dogma, um princípio, uma fé. E então o bom bebedor sente pena. Não confessa, mas sente. Mesmo o mais feliz abstémio o deixa convicto de que é uma felicidade semi-plena, à míngua de umas cervejas geladas sobre o calor alentejano de um grelhado ou um copo de tinto à lareira beirã, rumo a um serão romântico. Reside aí a confusão que no bom bebedor o abstémio inspira: tudo à míngua e nem uma gota de xerez? Que diabos, não é natural. 

Secretamente, é claro, todo o bom bebedor se sente atraído pela abstinência e pelo alcoolismo. São a cauda e a cabeça do dragão, o yin e o yang e todas as dicotomias clássicas e new-age que possamos enumerar. O incontornável Kingsley Amis, habitual por aqui, escreveu várias crónicas a detalhar a experiência de não beber. Horrível, sem dúvida. Mas não resistiu a experimentá-la. Fiz o mesmo, confesso. Deixei-me de álcool. O mais que aceitei foi um brinde, aqui e acolá, durante seis meses. Fisicamente vi a diferença. Passei a tratar de outro modo a lei da gravidade. Mas ao cabo de algum tempo não consegui afugentar a ideia de que há também uma embriaguez de privação. Não tanto uma ressaca contínua, mas habilidade do corpo em se compor de uma outra efusão e assim se alterar a consciência. Há um diálogo fabuloso em Sexus, onde Miller coloca o seu protagonista  a explicar a Ned que a verdadeira embriaguez consegue-se com água. Claro que é um mero exercício de estilo, mas a ideia fascina o bom bebedor ao ponto de querer também ele fazer da sua abstinência um exercício. Vale pelo que descobrimos de nós. Num repente apetece-nos cheirar as garrafas de gin e de whisky, como se de perfumes se tratassem. E em ocasiões sociais percebemos que o abstémio é o parente pobre da paródia. Como conseguirão eles viver, pergunto-me e isto basta-me para que se esfume o fascínio. Já a tentação do alcoolismo é difícil de experimentar: uma vez alcoólico, sempre alcoólico. O bom bebedor não pode admitir isso. Por isso, na dúvida fugirá do diagnóstico. Para ele o alcoolismo é um fim natural. Algo que acontece mais facilmente a quem bebe bem. Algo que pede apenas um azar, um acidente pessoal, uma tragédia familiar, um período de stress. “Leaving Las Vegas” all over again. É fácil simpatizar com Nicholas Cage, é fácil sonhar com Elisabeth Shue, mas o bom bebedor acaba por ficar impressionado com aquele fim. Mesmo sendo aquele fim. É que os alcoólicos tendem a morrer. Dir-me-ão: isso são coisas que acontecem. É verdade. Mas ao bom bebedor a morte do alcóolico parece um desperdício. Não se poderia beber um pouco menos de cada vez e aproveitar para beber um pouco mais longe até ao fim?

De modos que o bom bebedor vive permanentemente acompanhado pela abstinência e pelo alcoolismo. Arriscando a genealogia dir-se-á que são os pais do bom bebedor: passando-lhe os valores, metendo-o na linha, mas ainda assim com Édipo suficiente para se matar o pai e ir procurar uma mãe com que se possa beber.

Há uns meses, no início da minha experiência de abstinência fiquei num jantar de aniversário sentado ao lado de um bom bebedor. Amavelmente querendo servir-me de vinho expliquei que não, que por seis meses não beberia. O cavalheiro tomou pena de mim, perguntou-me porquê. Disse-me que havia que viver a vida como se estivéssemos permanentemente no seu último ano. Assenti a tudo, mas repliquei: é justamente porque concordo completamente consigo que preciso de perceber este estranho mundo antes de morrer. Já o alcoolismo deixarei para a derrota. Se um dia me afundar e desistir tenho para mim que é no alcoolismo que irei cair. Há por isso esta bela certeza, que dá uma certa tranquilidade. A abstinência e o alcoolismo são, sem dúvida, os maiores flagelos para o bom bebedor, por isso viver bem com eles faz parte do prazer de cada gota que se bebe. Cada um deve encontrar a sua forma. De preferência ponderada na companhia de um Yoichi de 20 anos. 

 

Publicado originalmente na revista Bica #1(2017)

 

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