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Ácido Cítrico

textos dispersos de Pedro Santo Tirso

Ácido Cítrico

textos dispersos de Pedro Santo Tirso

De Ponta Delgada a Galway

Março 25, 2020

Aterro em S. Miguel e apanho um táxi para Ponta Delgada até ao Largo da Matriz. Olho a Igreja de São Sebastião para confirmar que cheguei. O céu está cinzento, mas é final de tarde e confunde-se com o crepúsculo. O mais certo é de manhã ter estado céu limpo. A cidade acalma e apenas algumas zonas preparam a noite. Daqui até Temple Bar é perto. As ruas vão ficando desertas. Faço o check-in no Paramount e são dois passos até Porterhouse. Normalmente, na dúvida, peço Guinness, mas aqui a única dúvida é que variedade de cerveja escolher. Porterhouse é a casa de algumas das melhores cervejas de Dublin, produzidas pela companhia com o mesmo nome. Vou pedindo - primeiro uma Porterhouse Red para abrir o palato, depois uma Oyster Stout e finalmente uma Wrasslers 4x para manter a máquina em movimento - e vou observando o bar encher. Chegam tantas pessoas como eu próprio. A primeira coisa a fazer quando se chega à insularidade é recolher a dispersão a que alguns de nós andamos sempre condenados. Há pois um perfil psicológico para esta viagem. Escreve-vos o tipo clínico que vai à insularidade como quem vai às termas: em busca de um paliativo para a sua condição. No caso, dispersa e desfocada. Se para muitos a insularidade é um tormento que os aprisiona e limita, gerando toda a espécie de fugas reais ou ficcionais, para mim a insularidade sempre foi uma terapia. Cada vez que chego a uma ilha insular começo a sentir-me regressar ao corpo, como se o mar que está ao redor desta terra se tornasse uma película de mim. Não é fácil encontrar ilhas assim, com este efeito. Com os instrumentos para permitir isto. E mesmo quando encontro, não deixo de ficar perplexo com os efeitos díspares que produzem noutras pessoas.

Ilhas. Como é que tudo isto começou? Não me recordo qual foi a primeira ilha que visitei. Duvido que tenha sido em Portugal. Só fui aos Açores e à Madeira já trintão, às Berlengas nunca fui. As ilhas do Algarve apenas as visitei já universitário e à ilha do Pessegueiro tinha ido alguns anos antes, a nado. Então, qual terá sido? Tenho que apelar. Um telefonema para o meu pai informa-me de Manhattan. Manhattan. Com o meu pai. A caminho da Disneyworld em Orlando, Florida, Estados Unidos, anos 80. Manhattan. Eis a minha primeira ilha. Só que o tempo mostrar-me-ia que uma ilha não se confunde com a insularidade. As únicas ilhas que interessam como tais são as insulares. São essas ilhas que quero lembrar. Quem se lembra que Manhattan é uma ilha? Quem sente a insularidade de Manhattan?

Depois de Manhattan veio a Grã-Bretanha, ou talvez melhor, Londres, onde a insularidade é também quase impossível. O mundo está cheio de ilhas se continentalizaram, que abandonaram a insularidade. Que se abandonaram. E creio que não há nada de errado nisso. Talvez fosse o seu destino desde o início. Pelo contrário as ilhas insulares foram descobertas afastadas da sociedade e assim permaneceram, isoladas. Criaram a sua própria sociedade, que só por ilusão parece ser a mesma que uma outra, de um mesmo país ou cultura. As ilhas que são insulares mantêm-se afastadas da convivência porque criaram a sua própria convivência. Só o percebi mais tarde, quando em 2001 aterrei em S. Miguel, Açores. Não o sabia então, mas o que compreendi da insularidade nessa viagem começara a compreendê-lo em 1997 quando estivera em Dublin. E confirmá-lo-ia, quanto à Irlanda, quando em 2013 a atravessei de Este para Oeste, de Dublin rumo à baía de Galway. A partir de São Miguel percebi que só algumas ilhas são insulares. Só algumas ilhas continuam a manter a fronteira primeira, do início dos tempos, a separação da terra e das águas, que cria a insularidade que não se basta com a geografia e é também da consciência. Entramos nelas, nessa insularidade, como num convite a superarmos o tempo e o espaço que convergem sobre nós. Toda a insularidade é um convite à recriação. Senão não é insularidade. O sentido é a única questão. Para fora ou para dentro? Essas ilhas, como os Açores ou a Irlanda, passaram a perguntar-me continuamente. 

Saio de Porterhouse já tarde, pouco antes do fecho, e deambulo pelas ruas. Acabo na marina de Angra, indeciso sobre o caminho a tomar, dou a uma esquina e estou nos Mosteiros, assusto-me, viro noutra, e estou em The Weir, Kilcolgan, para comer umas ostras no Moran’s, junto ao Atlântico. Talvez tenha bebido demais. Volto ao Paramount e durmo uma noite descansada na Pousada de São Sebastião, vendo o Monte Brasil da minha janela. O último pensamento antes de adormecer é o de que, contra todos lugares comuns sobre as semelhanças entre os Açores e a Irlanda o que mais as aproxima são as suas diferenças. As formas distintas como contribuem, ainda assim, para recortar a insularidade que tudo agrega, como uma força centrípeta rumo ao corpo e ao pensamento.

Há pois na insularidade, comecei eu a pensar em 2001, uma verdadeira filosofia. Como todas as grandes filosofias ela começa pela física a caminho da moral. Da geografia para a psicologia. Mas já lá vamos.

Acordo. O que primeiro me impressionou nos Açores foi o céu. Não muito diferente do que fora a minha experiência de Dublin em 1997. Talvez tenha sido pelo céu, quatro anos volvidos, que comecei a juntar os Açores e a Irlanda. Uma vez acesa a centelha é difícil distinguir entre o paralelo encontrado e o paralelo forçado. Sobretudo num tema cheio de clichés. Até hoje não sei o que os Açores e a Irlanda têm realmente em comum para além dos lugares-comuns: o céu e o verde e o mar. Toda esta física, mesmo com as diferenças de temperatura é facilmente enganadora. Damos por nós a olhar para uma mão, enquanto a insularidade, ilusionista, faz o seu truque com a outra.

É verdade que os Açores e a Irlanda têm muito em comum. Tiremos isso do caminho. O céu e o verde e o mar. E são ilhas, claro. São ilhas. Mas nada disso diz da insularidade. 

É verdade que os Açores e a Irlanda são verdes, como está vestido de verde a mítica figura do duende irlandês no fim do arco-íris, guardando o seu pote de ouro. Não há como contornar a biologia. Três partes de água para uma parte de terra e temos a profusão das cores com o verde a imperar. Mas há mais. O verde das ilhas, sim, mas os vários tons de azul do mar, aquela alternância de reflexos bicolores entre o cinzento e o azul do céu. O mar cerca-nos e o céu fecha-se. Resta-nos o verde, como um fundo de estúdio sobre o qual podemos projetar o que quisermos. Estamos nos Açores e na Irlanda condenados a enfrentar-nos. Previna-se quem tem nisso um pânico, prepare-se para quem tem nisso prazer. Não estamos apenas isolados. Ou, talvez melhor, nos Açores e na Irlanda o isolamento é uma redundância geográfica. Há um convite irrecusável a tomar (a trocar?) a consciência do corpo pela consciência no mundo.

É verdade que os Açores e Irlanda são as ilhas que lembram o mar, que nunca nos permitem esquecer o mar. Nessas ilhas andamos permanentemente com a promessa das praias, das falésias, dos promontórios, dos cabos, das enseadas, do azul ondeado. O mar, entre nós e uma mínima mudança no horizonte. A primeira vez que senti isto foi nos Açores, no tal princípio de século. São Miguel, mas também Terceira, Faial, Pico e São Jorge. A minha primeira viagem açoreana, com meio grupo oriental e quase todo o grupo central (até hoje a Graciosa escapa-me). Em todas elas o mar esteve sempre ali. Mesmo no interior senti-me sempre em trânsito para o mar, para a costa. Há uma proximidade aparente entre o ilhéu e o habitante do litoral, esse contato sempre próximo e potencial com o mar. Mas ela esfuma-se quando nos tornamos ilhéus por uns tempos e percebemos que não temos o interior como ponto de fuga, que o interior está sempre consumido pela imensidão do mar que o rodeia. Em boa verdade vos digo que o que distingue o ilhéu de qualquer continental, mesmo dos que habitam o litoral, é a suprema consciência do mar como a envolvência de tudo. Tal como a cegueira, esta plenitude do mar apura. Mas não os sentidos. A alma. É impossível não falar de alma a propósito dos Açores e da Irlanda. Como é impossível não falar de Deus.

É manhã e preciso de me por à estrada. Aponto para Oeste, sempre para Oeste, rumo ao centro do Atlântico, preparo-me para sair de Ponta Delgada e apanhar a M6 que a liga a Galway. A ideia é almoçar pelo caminho e levar este pensamento de Deus pela ilha fora. Deus, evidentemente, é o Grande Insular. Há um livro que adoro do filósofo Henry Corbin, chamado L'Imagination créatrice dans le soufisme d’Ibn’Arabî. O seu título na tradução inglesa é perfeito: Alone with the Alone. Ajuda a saborear a perfeição saber que se trata de uma obra sobre misticismo, sobre um dos expoentes máximos do misticismo islâmico. Ora a insularidade do místico é talvez a que melhor se compara à insularidade das ilhas. Estamos sozinhos com a solidão. Seja Deus ou nós próprios. O que vai dar ao mesmo. Deus é uma presença comum nas ilhas. E é difícil não ver o seu esplendor no modo como o catolicismo fervoroso convive com as antigas tradições pagãs. Secretamente acredito que todos os ilhéus são místicos. É impossível mediar Deus na cascata do poço do bacalhau, nas Flores, ou nas florestas de Connemara. É desnecessário. Os Impérios da Terceira ou as velhas capelas românicas da Irlanda são apenas pretextos para encontrar Deus de maneiras peculiares, seja apelando ao Santo Espírito, seja rogando a São Patrício.

Pelo caminho paro para almoçar. Tinha marcado de véspera um cozido no Miroma das Furnas e quase ao chegar percebo como gosto nos Açores e na Irlanda da supremacia do campo face à cidade. O modo como as florestas, os pastos, as terras de cultivo têm o domínio da paisagem e as cidades são pontuações desta história onde conseguimos demarcar bem a entrada e a saída, sem a continuidade genérica das grandes metrópoles, que tudo engolem e aglutinam. Este equilíbrio de experiências da paisagem ajuda a trazer à insularidade açoreana e irlandesa uma ritualização das vontades e dos propósitos. Sei por que estou no campo, sei por que vou à cidade. Sei por que vim às Furnas comer um cozido, sei por que sigo agora para Kilbeggan para comprar uns whiskies para a viagem.

Há que escolher um whiskey irlandês para a ocasião. No caso, Connemara Turf Mór. O whiskey irlandês é diferente. A começar pela palavra, com um “e” a mais entre o “k” e o “y”, talvez a lembrar que este é um whiskey do Éire. E não de outro lado qualquer. Destilado três vezes, para ficar mais suave, mesmo quando tem turfa em valores elevados, para que nunca nos esqueçamos do mar. Como se fora possível.

Estou a meio caminho. Rumo à baía de Galway, com a floresta de Connemara para Norte e a Fajã Grande para Sul. Tenho uma casa antiga de pedra à espera na Aldeia da Cuada e já antecipo o final de tarde, a ler no alpendre, faça chuva ou faça sol. 

Por falar em lugares-comuns, sento-me na sala de provas da destilaria, antes de partir, e penso como a insularidade afeta até a língua. A língua falada, claro. Basta ver como o português dos Açores e o inglês da Irlanda souberam adaptar-se aos seus limites e inventar uma singularidade (é verdade que o Gaélico é toda outra conversa). Mas também a língua escrita. É impressionante a quantidade e a qualidade de escritores que os Açores e a Irlanda produzem.

No ano em que primeiro visitei Dublin e a Irlanda, Seamus Heaney havia ganho o prémio nobel da literatura. Era a quarta vez que a Irlanda o ganhava. Mas talvez o que mais importe são os grandes escritores que não ganharam. Como importa nos Açores a sua profusão de escritores de todas as disposições: poetas, ensaístas, romancistas. Para além de Antero. A escrita parece ser uma das armas preferidas para açoreanos e irlandeses enfrentarem a sua insularidade. Faz um sentido completo: como a emigração também ela pode ser uma fuga; como Deus também ela pode ser um encontro. É fácil encontrarmos a insularidade nos açoreanos de Nemésio e nos irlandeses de Joyce. A sua insularidade é, à vez, a terapia que aqui evoco e a opressão que em outros me fascina.

Como Vincent Vega bem disse em Pulp Fiction: “It's the little differences. I mean, they got the same shit over there that we got here, but it's just...it's just, there it's a little different”. A ouvi-lo na minha cabeça chego à praia da Fajã Grande e estaciono. Saio do carro e caminho até às grandes pedras que delimitam o mar. À minha frente todo o Atlântico até ao Novo Mundo. Está um pouco mais de calor aqui do que em Galway. Talvez por isso não se destile aqui nada muito forte. Compensa-se isso com um certo spleen e um excelente Verdelho.

Sláinte. Que é como quem diz, à saúde da insularidade.

 

Publicado originalmente na revista grotta #1 (2016)

 

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