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Ácido Cítrico

textos dispersos de Pedro Santo Tirso

Ácido Cítrico

textos dispersos de Pedro Santo Tirso

A medida das coisas (mas sobretudo do Dry Martini)

Março 25, 2020

Quando o João me convidou para escrever sobre bebida, fiquei naturalmente contente. Eis um tema sobre o qual tenho feito uma extensa reflexão, um profundo trabalho de campo e uma elaboração teórica aturada. Contudo, parecia-me um pouco limitado escrever apenas sobre bebida. Atenção, não há qualquer problema com bebida desacompanhada. Mas até isso tem arte. A bebida só faz sentido no contexto do bebedor. Daí que tenha pedido ao João para elaborar um pouco sobre seu convite e poder falar rigorosamente sobre “bebidas e outras coisas”. Creio que assim ficamos todos mais descansados e esclarecidos. Mas logo para começar o João não me deu tarefa fácil. Estava eu a pensar em escrever sobre o Dry Martini e Luís Buñuel, uma ligação tranquila, quando ele me diz que o tema deste primeiro número seria a luz de Lisboa.

A luz de Lisboa a mim sempre me pareceu normal. Só quando os regressos a casa começaram a acumular-se dei por mim a pensar que se calhar havia qualquer coisa de especial nesta luz. A princípio ocorreu-me que a única especialidade era ser muita. Lisboa é uma cidade com sol boa parte do ano, é normal que a sua luz se faça notar. Mas a verdade é que muitas outras cidades podem dizer de si o mesmo e nem por isso parecem ter a mesma luz de Lisboa. Talvez o segredo, tenho vindo a pensar mais recentemente, esteja na combinação da luz com outros ingredientes. Esta ideia surgiu-me quando revia o Charme Discreto da Burguesia, de Luís Buñuel, e me lembrei de algo que ele afirma na sua autobiografia: “os conhecedores que gostam dos seus martinis muito secos sugerem que se deixe apenas brilhar um raio de sol através de uma garrafa de Noilly Prat antes de atingir a garrafa de gin”. Fiquei a pensar em brilhos e reflexos e de como a luz de Lisboa resulta de uma boa combinação de céu limpo e o enorme estuário do Tejo. Talvez seja este o segredo: uma luz que é simultaneamente sol e reflexo das águas do rio, com aquele grande mar da Palha, que vem de Alhandra até ao Terreiro do Paço, a dar uma segunda camada de luz ao nosso olhar.

Fico a pensar na luz de Lisboa, mas não desisto de Buñuel e do seu Dry Martini. Como quase tudo em Buñuel, realizador genial e subversivo, há ali muita transgressão e muita secura. Na verdade, a versão de Buñuel é uma versão tão seca quanto poder dizer-se que bebemos gin apenas com uma lembrança recente de vermute e umas gotas de Angostura (há um vídeo no youtube do próprio a preparar a sua receita, se duvidarem de mim). Mas não se trata um vermute qualquer, o que surge como um paradoxo. Apesar do gin ser o espírito ingerido ele não aparece nomeado por Buñuel, já o vermute, que apenas dá o mote para a descontração que há de vir, tem um nome: Noilly Prat. Há algo de bom nesta precisão pois serve de esclarecimento a um dos maiores equívocos da história dos cocktails (highballs, se quisermos ser rigorosos): o Dry Martini apenas por coincidência tem algo que ver com o vermute de nome Martini. Isso mesmo nos recorda Kingsley Amis no fundamental Everyday Drinking, a que tive que recorrer para temperar a transgressão iberoamericana de Buñuel com um pouco de humor inglês. O mestre inelutável de qualquer amante da bebida, à semelhança de Buñuel, era também um homem preocupado com as medidas para um Dry Martini perfeito. Ele refere quatro partes de gin e uma parte de Martini Rossi seco, devendo notar-se que também Amis deixa ao bebedor a dilacerante escolha do gin (“any nationally known gin is suitable”), mas incute-lhe o seu vermute (“but the vermouth must be Martini Rossi dry). Há aqui algo de profundamente antigo, nestas visões do Dry Martini, em que o gin serve apenas de émulo do álcool, quase sem variações ou identidade, e é o vermute que lhe dá o caráter e transforma o gin em algo que merece ser bebido. Como estamos longe da comoção e do transtorno que se abateu sobre a civilização ocidental há um par de anos erigindo o gin em moda de cuidados íntimos, com centenas de variedades e milhares de produtos complementares! Torna-se hoje tão difícil escolher um gin como um champô, flagelo pelo qual, manifestamente Amis e Buñuel não passaram (e vou deixar para outra ocasião a opinião de Amis sobre o gin tónico). O inglês, porém, admitia outras proporções. Ainda no seu Everyday Drinking referia que era comum ver-se uma divisão de 16 partes de gin para uma parte de vermute. A aproximação a Buñuel é visível à medida que o vermute se rarefaz, mas estaca furiosamente quando Amis admite servir um Dry Martini “on the rocks”. Que pensamento absurdo. Buñuel dizia que não havia nada pior que um Dry Martini aguado. E tem toda a razão. Não sei o que terá passado pela cabeça de Amis, mas entre o humor de Amis e os humores de Buñuel não restam dúvidas de que em matéria de gelo no Dry Martini devemos ficar com o nosso irmão surrealista. O inglês, contudo, redime-se: além de, em circunstâncias especiais, quase se juntar à receita de Buñuel (“Numa emergência consideraria pedir bastante gin e pouco vermute, mergulhando o meu dedo no vermute e mexendo depois o gin com ele”), a receita final de Amis para um Dry Martini é algo que quase podemos aceitar, não obstante a água e as cebolas: “O melhor Dry Martini conhecido pelo homem é o que eu faço para mim próprio. Na parte mais fria do frigorífico tenho uma garrafa de gin e um pequeno copo de vinho meio cheio de água que se permitiu ficar gelada. Quando chega a hora, encho metade do espaço remanescente com gin, salpico umas quantas gotas de vermute e junto um par de cebolas de cocktail, daquelas pequenas, brancas e duras. Isto sim é uma bebida”. Enfim, chamemos-lhe uma versão excêntrica.

O Dry Martini, porém, é o Moby Dick dos cocktails: toda a gente o conhece (the name is Bond, James Bond), mas ninguém o bebe. É compreensível. Ora porque é caro, ora porque na discoteca da moda não o fazem, ora porque tem álcool a mais (santo deus), o Dry Martini é hoje uma bebida mais de páginas de revista (aqui o tendes) e de ecrã de cinema do que de mesa de bar. O seu ingrediente principal vê-se e bebe-se, claro. Mas sempre amansado por 20 cl de água tónica (quando não mais). E aqui está a explicação: o Dry Martini é gin perfumado em vermute não se deixa domesticar. E ninguém tem tempo para beber uma bebida a sério nos dias que correm.

Para os que ainda bebem cocktails, contudo, não há melhor que o Dry Martini. Tirando o Vesper, claro, a que voltaremos noutro dia, o Dry Martini recusa totalmente a facilidade adocicada da maioria, pedindo ao vermute apenas um lampejo de doçura, insuficiente para emascular a secura do gin. A vida tal como ela é, mesmo que não tenhamos tempo para ela, o que é, quotidianamente, o grande inimigo do Dry Martini: a impossibilidade e a incapacidade para vivermos uma vida à altura deste cocktail. 

Regresso a Lisboa. Também ela, com o incremento recente de turistas que enxameiam a cidade, e já não apenas o centro, perde a possibilidade de ser descoberta na medida imposta por um Dry Martini: cheirar o perfume adoçado do bulício da Baixa-Chiado mas beber a firmes tragos a cidade dura, seca e cheia do caráter, que se estende de Sacavém a Algés. Mas regresso também a Buñuel e a O Charme Discreto da Burguesia (a uma das suas cenas mais memoráveis, com burgueses e um motorista) para recordar, à luz das lições que Lisboa nos dá sobre a medida e o modo de uma bebida, que só há duas maneiras de beber um Dry Martini: a certa e a errada. Ambas são boas. 

Podemos beber um Dry Martini de um trago antes de uma loucura a ser cometida, sob um céu e um espírito nublados, e que diabos! ao menos será uma loucura bem temperada. Ou podemos beber um Dry Martini, lentamente, a leves goles, a caminho da contemplação que ele nos proporciona. E que é melhor acompanhado em terraços, ao fim do dia ou em noites de muita lua. E se posso ainda pedir mais, com a luz, solar ou lunar, de Lisboa. Buñuel aprovaria. 

 

Publicado originalmente na revista Bica #0 (2016)

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