Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Ácido Cítrico

textos dispersos de Pedro Santo Tirso

Ácido Cítrico

textos dispersos de Pedro Santo Tirso

...

Março 27, 2020

Numa praia de Naxos, 

um homem de cabelo púrpura

duas vezes nascido 

sonha

 

a grande casa de Tebas

onde a sua mãe nasceu

na linhagem de Cadmo

e Harmonia.

 

E num repente uma outra casa 

Athamas e Ino, 

cumprindo promessa ao 

Senhor de todos os 

trovões, perante o seu 

mensageiro.

 

Trismegisto e ele tão pequeno,

um bebé, indefeso,

descoberto, a loucura de 

Athamas e Ino

sofrendo a promessa ao 

Senhor de todas as 

águias, perante a sua

mulher.

 

Ficou, a loucura.

Não mais a esqueceria.

Não mais a deixaria.

Faria dela uma arte, 

uma religião.

 

Mas não agora, 

não agora,

ainda não.

 

Uma outra casa,

nas montanhas de Nisa,

cheia de ninfas e leite de cabra

surge num frenesi.

Nessa casa há dados e 

piões e pequenos bonecos 

de madeira e de osso.

Os brinquedos de uma 

criança da Beócia.

 

Desfeita, desmembrada por 

gigantes disformes, titãs

chamam-lhes. 

 

O homem, deitado, dormindo

numa praia de Naxos,

com os cabelos púrpura

sobre a areia

sonha

 

em Delfos partilhou o templo

com aquele que é sempre belo

e sabedor,

à Índia chegou triunfante,

à frente de tigres e sátiros

fundou cidades e deitou-se 

com homens e mulheres 

embriagados.

 

Novo abalo, novo tremor, 

o sonho leva-o de novo à 

Senhora da Ordem e do Ciúme,

a loucura agora sobre si, 

não mais memória, mas carne,

mas sangue, mas visão,

mas poder conseguir 

o que matou a sua mãe:

chegar a conhecer o pai.

Em todo o seu esplendor.

 

Descobre o vinho, no sonho

sonha na praia, itifálico 

regressa a Tebas, no sonho, 

treme sobre as areias de Naxos,

o cabelo violeta de fúria,

de fome, da violência 

de ser,

o mais doce, mas também o mais terrível.

Zoe que congrega o tíaso,

e o tio incrédulo.

Despedaçado pela ménades, as mulheres 

que devoram os próprios filhos,

vinho que escorre das parras, sem nunca

nunca, ser mosto, nem fermento,

nem filtrado, nem com água misturado,

nem servido. Sonha.

 

E já transformou piratas em delfins,

fez cair a grande Casa de Tebas e um rei

na Beócia, um templo dividir-se entre a folia

e a razão, mas este homem que sonha,

os cabelos púrpura sobre as areias de Naxos,

com a mulher ali ao fundo,

deitada também________ uma constelação 

o homem que sonha sabe que as casas estão

destinadas a ruína, as casas são uma ilusão.

 

Por cada casa que teve, cada casa sonhada,

lembrada, recordada, uma loucura, uma mania

uma ilusão.

 

Mas________ não.

Não mais!

Não mais!

 

Não há casas, não há casas!,

acorda gritando o homem que sonha. 

E não é um homem, 

______________ nem sonha já.

 

É o décimo terceiro deus, que trocou 

ser o eterno estrangeiro

pela certeza dodecacerta do panteão

pelo fogo da veneranda Héstia, e 

assim entrou gritando, 

________________ já não sonhando

 

Não há casas!

Não há casas!

__________ na maior das casas que houve.

E o panteão não ruiu, lá ficou 

no Olimpo esquecido, uma ilusão, 

uma ilusão.

 

Não há casas, não há casas. 

Só máscaras e passagens.

 

O sonho de Diónisos

 

Publicado originalmente na obra colectiva Casa, editora do Lado Esquerdo (2016)

 

IMG_9654.JPG

 

 

Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D