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Ácido Cítrico

textos dispersos de Pedro Santo Tirso

Ácido Cítrico

textos dispersos de Pedro Santo Tirso

A parede azul

Abril 20, 2020

November - Azure Ray

 

para a Maria

 

Desde pequenos prometidos 

os promontórios da idade

o fascínio da terra

tudo tudo o que há no mundo

sem sabermos do bem e do mal

 

Dos rios das passagens das órbitas dos astros

o temperamento dos ventos as paisagens

o caminho dos escaravelhos a coloração do basalto

a textura da cortiça o aroma do olmo as visitas à praia

a viagem com aqueles que entretanto morreram

a Polinésia francesa e outros locais longínquos

 

A prova do fascínio do mundo cumprindo todas as horas

em todas as partes sem descanso ou intervalo

amar assim todo o mundo como toda a gente

 

Essa variedade o mundo

essa palavra cheia de olhares

as formas do olhar olhar para ele

como toda a gente a partir do corpo

 

O mundo que vemos o triunfo da carne

como toda a gente quisemos um mundo sem corpo

que fosse um momento dentro de todas as coisas

 

uma parede branca que vemos azul

a vida retomada dos dias e

feita nossa

azul azul

branca como a cal azul para nós só para nós

e assim refazemos o mundo podando as proposições irrelevantes

só ficando a música interna da solitária visão

a parede branca feita nosso mundo

 

senta-te aqui e vê o azul comigo

até as cores se tornarem metáforas

de sermos a solidão um do outro.

 

Publicado originalmente na obra colectiva Mixtape II, editora do Lado Esquerdo (2018)

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Firmamento

Abril 20, 2020

Losing my religion - R.E.M.

 

para o Pedro

 

Todos os mantos

como caminhos

todos os aflitivos voos

as conquistas

as mães perdidas

sob a fonte antiga

 

todas as noites que tremem

a queda das vozes

a vagem nas feridas da cidade 

 

ao fim ao meio ao caminho

desenho numa conversa do fim

do dia ao futuro ao

invariável medo dos nomes

as ruas as árvores infernos

das histórias ao meio

ao certo nada

 

todos os modos _______ irrelevantes

o corpo com os seus males

___________

___________ a promessa difícil

da boca a uns lábios

a língua e o sentido por dar

ao certo nada 

 

as virtudes violências sobre a pele do fruto

as ameixas os alperces e outras 

________________ assim as 

mães e as avós

virtuosas todas ___________

ao cabo nada

 

assim as pernas entrelaçadas

em estradas entradas

as direções perdidas e as 

dores nos joelhos e nas cruzes 

fazem os corpos ser mais e 

talvez pessoas mais mas 

ao fim nada

 

um toque em silêncio um toque

antes um copo de vinho dois dedos 

de sorriso de limão e 

todas as salas fechadas ao amor que se fez

________

ao meio dos corpos 

muito quietos ao fim

nada 

 

e todas as manhãs sobre essa cidade 

de corpos por descobrir

entre as sementes do fogo entre as 

flechas que formam a estrutura 

das casas as mãos que olham

a obra por nascer 

ainda nada

 

subindo as escadas do santo espírito

sobe-se a uma redenção para lá

das conversas incautas sobre aquilo

que não se pode agarrar e apenas 

a escuridão dá sentido

à carne que nos faz beijar

antes nada 

 

a fórmula dos gestos a água-forte

antes limpando a prístina mácula

pergunta como há de fazer-se nova e 

para sempre a vida boa avança

a voz do corpo ante o peito desfaz-se

o som em alcatrão lajes e orlas

das fronteiras uma 

personagem inventada para lembrar

a posição do corpo

ante o firmamento antes

ao cabo nada.

 

Publicado originalmente na obra colectiva Mixtape II, editora do Lado Esquerdo (2018)

 

 

Sazonalidade

Abril 05, 2020

O alcoólico galopante não concordará com esta crónica. Mas, enfim, nem todas podem ser para ele. E vem à memória, claro, Nicholas Cage, em Leaving Las Vegas, a encher um carrinho de compras com todo o tipo de bebidas. Mas já o bebedor de bem ou mesmo o alcoólico funcional pode colocar-se esta questão, aliás, motivada por um instinto degustativo e pela contemplação das suas experiências passadas: há bebidas para certas alturas do ano? 

Algumas bebidas parecem ter resposta óbvia, umas por escaparem a toda a sazonalidade, outras porque estão acantonadas a uma época específica. Veja-se a cerveja de tipo lager. Não obstante beber-se gelada nem por isso deixa de se beber no tempo frio, embora fosse interessante perceber como varia o consumo entre o Verão e o Inverno. De forma muito menos acentuada também há quem beba vinho branco o ano inteiro, mas no que diz respeito a vinhos o mais interessante passa-se com os tintos: mesmo no tempo quente há quem insista em bebê-los e sem o colocar à temperatura ideal de consumo, ou seja, uns agradáveis catorze ou dezasseis graus. Por outro lado, a cerveja preta quase desaparece no tempo quente pois ninguém parece querer saber dela. É o peso, dizem. Parece que no que toca a bebidas alcoólicas, o consumidor é pouco exigente e vai atrás das suas preferências o ano inteiro, mesmo que as condições climatéricas e o ambiente envolvente não o recomendem. Por isso há quem beba cerveja gelada com frio de rachar e a quem beba vinho tinto a vinte cinco graus ou mais. Um caso preocupante chega-nos com o whisky. Eis uma bebida que deve beber-se com frio. Pessoa que esteja a sentir-se bem, confortável, sem a mais remota sensação de frieza, não deve em consciência pegar num whisky. Exceto, pensam muitos cidadãos, se eu lhes juntar uma ou duas pedras de gelo. O refresco de whisky está por estudar mas é seguro dizer-se que um bom whisky com uma pedra de gelo torna-se refresco. Ou seja, um sacrilégio. Os liberais discordarão. Mas estarão enganados. Já quanto aos whiskies novos é aceitável duas ou até três pedras de gelo, justamente porque com um whisky novo é (quase) aceitável a noção de refresco e o tempo quente sempre foi propenso a loucuras.

A sazonalidade não ataca de mesma forma o consumidor de espaços exteriores e de espaços interiores. Com a melhoria das condições de vida, embora em momentos históricos diferentes, o bebedor civilizado passou a usufruir de temperaturas temperadas durante todo o ano no conforto do seu lar, nas casas de familiares e amigos e no local de trabalho. Assim, todas as bebidas propensas a temperaturas amenas passaram a ser bebidas de consumo continuado ao longo do ano. Estão nesta situação a já referida cerveja de tipo lager e o vinho tinto. É possível viver-se hoje confortavelmente a vinte e três graus todo o ano, o que, apesar de tudo, torna mais apetecível uma cerveja do que um copo de vinho tinto, mas para este último nada como um daqueles pequenos refrigeradores que agora se encontram em conta em todas as grandes superfícies comerciais. Claro que nem todos têm esta possibilidade de uniformização climatérica e além disso sobram ainda os espaços exteriores. Para estas duas situações a reflexão sobre a sazonalidade, seus efeitos e remédios, continua muito atual. Por isso vou deixar-vos com algumas sugestões para lidar com a sazonalidade no que diz respeito a bebidas incontornáveis no nosso quotidiano: a cerveja, o vinho e o whisky (uma vez que creio que ninguém no seu perfeito juízo, quererá beber um gin tónico para além da época maio-setembro, ou seja, a mais de vinte cinco graus de temperatura ambiente).

No que diz respeito à cerveja fora de época não há outra hipótese senão migrar das lager para as ale. É verdade que boa parte das ale se bebem frescas ou mesmo geladas, mas muitas admitem uma temperatura um pouco mais alta, digamos dez ou mesmo doze graus, o que já é perfeitamente aceitável em tempo frio. Estão neste lote a excelente Sagres preta, a Guinness e praticamente todas as stout das cervejeiras artesanais portuguesas. É pois uma forma de continuar a beber cerveja durante todo o ano. Claro está que, para quem a cerveja é apenas lager, não há solução possível. No que diz respeito ao vinho, há soluções quer para o tinto, quer para o branco. Um tinto em tempo quente resolve-se facilmente com uma refrigeração cuidada uns minutos antes do consumo ou simplesmente com a colocação da garrafa num frappé imediatamente depois de a abrirmos (embora seja necessário ir controlando a temperatura para o vinho não ficar frio demais). Já um branco em tempo frio dá mais trabalho, uma vez que será necessário encontrar os que se possam beber quase à temperatura ambiente ou seja, aí em torno dos doze graus. Ora isto é muito difícil, mas é possível. Por exemplo, os Vidigueira, Antão Vaz ou Perrum, são vinhos que embora excelentes ao frio são bastante agradáveis a uma temperatura um pouco mais elevada. O mesmo se diga dos Colares. Mas a verdade é que para os brancos não há grande salvação: a sazonalidade aqui faz das suas e só se salvam os cidadãos que não tenham problemas em beber um branco fresco em tempo gelado. Finalmente, o whisky e a magna questão de beber um bom malte na canícula de agosto. Excluídos os impensáveis seres que bebem malte acompanhado apenas por trinta graus de temperatura ambiente o que equivale a fazê-lo passar pelas provações do Inferno de Hieronymus Bosch, há apenas uma forma de beber um bom malte a temperaturas superiores a vinte graus: juntar-lhe água. Esta simples alquimia, a preferida de Kingsley Amis, nossa autoridade habitual, torna um bom malte num malte ainda melhor, pois abre as suas moléculas às tentações do Verão, convertendo-se num tratado de química para nosso deleite. Uma vez que a água, sendo mineral e criteriosamente escolhida, pode estar gelada, três ou quatro gotas em dois dedos de malte trarão a bebida ao patamar de prazer desejado. Não esquecer que no caso de malte trufado juntar água das pedras convoca uma experiência sensorial inolvidável. 

 

Publicado originalmente na revista Bica #5 (2018)

 

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Ponderando limões, ponderando tequilas

Abril 05, 2020

Devemos cumprir prazos. Os prazos mantêm o mundo a girar. O pão que chega a tempo, o casamento que se celebra e por aí vai. Sucede que nem sempre é possível cumprir prazos. E aí devemos assumir e confiar na Providência. Eu já tinha perguntado ao meu paciente editor para quando era o texto desta Bica e ele respondeu lacónico: 10 de abril. Sabia que ia ser difícil, mas meti-me ao caminho. O mais importante já tinha. O tema na cabeça, a necessidade de, à semelhança do que aqui fiz há dois textos, proclamar a margarita a bebida deste Verão. Estas proclamações são importantes. Alinham-nos com as estações e alinham os nossos amigos connosco, já sabendo ao que vêm. Além disso, dão um bom texto sobre os espíritos que bebemos e nos alimentam. Determinado, pois, a proclamar a margarita a bebida da estação quente de 2018, dei por mim a braços com o prazo e o prazo foi ultrapassado, entregando-me a Providência (e a benévola brandura do meu editor). Fui, contudo, recompensado. A 14 de abril, Miguel Esteves Cardoso publica no Público, na secção Fugas, uma crónica intitulada “A margarita revisitada: é saborosamente chocante como fica melhor sem Cointreau, com xarope de agave” e este meu texto mudou completamente. 

O MEC é para mim uma autoridade. É uma autoridade no sentido próprio do termo. Está autorizado a falar sobretudo e a minha atenção para ele é sempre completa. Desde alcatifas, à lealdade, chegando agora às margaritas, se o MEC escreve presumo sempre que tem argumentos que me interessam conhecer. Mesmo se não concordo. O que é aqui quase todo o caso. E foi isto que mudou a história do meu texto. Ia ser um e por divina intervenção de MEC tornou-se outro. Vamos a isto.

Ao contrário do que sucede com os cocktails que têm o gin por bebida nuclear, não cheguei à margarita pela tequila. Cheguei pelo sumo de limão. O sumo de limão é uma bebida destinada a misturar-se com outras para o progresso da civilização. Se é verdade que poucos suportam bebê-lo puro e talvez não fosse melhor o mundo em que isso sucedesse regularmente, é ainda mais certo que precisamos das características do sumo de limão misturadas numa bebida à sua altura. E foi assim que cheguei à margarita, reflectindo. Não que não tenha bebido várias margaridas irreflectidas. Fi-lo, confesso. Mas quem nunca? Deixei porém essa experiência lá atrás, na leveza da adolescência, e só reencontrei a ideia da margarita na consideração do fruto do limoeiro. 

Quando se tem tanta abundância de limões quanto eu, é difícil não darmos por nós a considerar formas de lhes dar uma vida condigna, ao invés de uma existência na podridão. Tentei o “lemon curd", mas não me dou especialmente bem com doces (embora seja uma ótima ideia para quem gosta de scones e chá, enfim). Tentei mousse de limão, mas não me dou especialmente bem com mousses (embora seja boa ideia para corresponder ao ocasional convite para jantar). Tentei, enfim, a bebida. Digo-vos que não foi um caminho fácil. O que não falta, é certo, é um mundo de bebidas que se podem elaborar com sumo de limão. Mas sempre muito pouco, muito pouco. A justa repartição entre um bom espírito alcoólico e o sumo dos meus soberbos limões escapava-me. Até que, dos confins das minhas memórias, ouvi a margarita chamar. Isso e porque contemplei uma velha garrafa de “Tres Sombreros", que estava dormente na prateleira do bar da Casa do Limoeiro. Pensei: consideremos a margarita.

Comecemos pelo princípio, sem complexos nem pressões, mesmo sabendo que em campo está Miguel Esteves Cardoso. O mais importante da margarita, como cocktail que é, mesmo levando em atenção tudo o que vos tenho dito, não é nem tequila nem sumo de limão, mas a combinação criativa deste dois elementos e a adição das laranjas através de Cointreau. Ora esta premissa de abordagem à margarita dita a minha divergência com a doutrina de MEC. Aqui começa a discórdia. MEC claramente prefere uma margarita que puxe pelo tequila o mais possível, sendo os demais ingredientes satélites em seu torno. Contesto isto. Contesto isto com toda a minha alma. Lá onde estiver o inventor da margarita, por mais homenagem que tenha querido fazer à tequila, quis inventar algo novo com sumo de limão e um bom licor de laranjas. E confesso que as laranjas trazem ânimo e desafio à combinação. E, assim, logo à partida estamos conversados.

A opção entre uma tequila branca ou dourada só pode tomada pela condição do momento. Duvido que exista ser humano que se condene a uma existência perpétua de margaritas feitas apenas com um tipo de tequila. Sendo a diferença entre ambas a adição de um tequila um pouco envelhecida (reposado) a um tequila branco novo por alternativa à não adição, e sendo essa diferença responsável por um sabor mais adocicado no primeiro caso, não é possível fechar-se a margarita na monogamia de uma infundada relação. Para mais, com preferência pelo tequila branco, como sugere MEC, e é contrariado por José Cuervo. Quantas e quantas vezes, surgindo-me no espírito a vontade de uma margarita não veio ela acompanhada de uma clara visão de tequila dourada, em antecipação desse sabor mais variado e da transfigurada riqueza que traz à margarita? Há, por isso, que tomar posição e aqui ficará justificada a divergência que anotei, ao ler MEC no Público. Para mim, a margarita é uma grande invenção por ser uma bebida aberta à ponderação do limão. Mais do que em quase todos os cocktails conhecidos pela humanidade, o jogo das proporções é na margarita um jogo de ponderações entre agave, limão e laranjas. Ora, MEC quer que a margarita se resuma a agave com um toque de limão. E isso é um atentado à margarita e a todos os nomes próprios no período pós-Kripke e Putnam. Se é uma margarita, então é sempre um convite à nossa melhor combinação de sabores de tequila com a correspondente resposta do limão e das laranjas. Substituir o Cointreau por xarope de Agave recomenda-se apenas aos mais fanáticos deste cacto, e sempre recomendando que se invente nome distinto.

Tudo está na proporção dos ingredientes que mereceram o batismo e eu tenho vivido com duas variantes, tanto quanto a memória me garante. 

A primeira, e que mais recomendo, é também a que recomenda Kingsley Amis, para não ficarmos áridos de autoridades. É simples no seu 3, 2, 1 de ponderação, com três partes de tequila, duas partes de sumo de limão e uma parte de Cointreau. Tem de ser Cointreau ou então mais vale irmos pelo MEC e deixarmos cair as laranjas. O que não pode aceitar-se é substituir o Cointreau por um triple sec manhoso. Esta combinação deve ser feita com tequila branca e ser acrescida de umas duas ou três gotas de Angostura Bitters, antes de agitar, o que descobri ser um ótimo tónico. Esta é a receita que tem feito sucesso junto de palatos amigos, incluindo o meu próprio.

Claro que se estivermos com vontade de algo mais agressivo, mas também mais sofisticado, recomendo duas partes e meia de tequila reposado (Herradura, por exemplo), duas de limão e meia de Cointreau. Ou até mesmo substituir de todo o Cointreau por duas ou três gotas de Angostura. Em qualquer caso o importante, no que concordo com MEC, é que a tequila seja boa e por isso experimentada à temperatura ambiente em busca do sabor agave em medida justa. Também funciona com um bom mezcal. Já os limões, não tendo como ceder-vos os meus, peço apenas que sejam conhecidos. Limões desconhecidos, comprados em supermercado, estragam qualquer margarita.

Mas se é para fazer como MEC, e sem pejo nem pudor puxar um ingrediente à ribalta em detrimento dos outros, então que seja o limão a ter protagonismo. Há uns tempos descobri o Limontejo, que é um limoncello do Alentejo. Esta estupenda ideia, em linha com o gin Sul, que é feito de ervas portuguesas e destilado em Hamburgo, veio da cabeça Francesco Catucci e em boa hora. Os limões alentejanos produzem um licor maravilhoso e a receita italiana faz o resto. Daí ter inventado, o que posso agora denominar de Gertrudes, que no fundo é uma margarita onde se substituiu o Cointreau por Limontejo. O resultado: magnífico.

Terminemos como começámos, com autoridade. Lembra Kingsley Amis que não há como negar: a margarita é uma das mais deliciosas bebidas do mundo, “but por Dios, Señor, watch it!”. O mesmo com a Gertrudes.

 

Publicado originalmente na revista Bica #4 (2018)

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Licitar

Abril 05, 2020

Quem não gosta de um bom leilão? E se for online ainda é melhor. A comodidade, a tranquilidade, a flexibilidade, a variedade e por aí fora sempre com o sufixo em -ade, queira Deus. Mas melhor, (estão preparados?), leilões de w h i s k y. Sim, leram bem, leilões de whisky. São tão bons que chega a ser irrelevante conseguir efetivamente comprar o que pretendemos. Provavelmente, no nosso subconsciente, nem queremos realmente comprar, queremos apenas acalentar a esperança na obtenção de certo bem que reputamos importante para a nossa felicidade, mas que se esfuma quando estamos perto de consegui-lo (mais propriamente alguns minutos antes do fim da licitação, quando alguém sobe uns 50€ a um preço já de si proibitivo). 

Os leilões de whisky (o meu site preferido é o whiskyauction.com, alemão, como se exige) pressupõem várias competências (como se diz agora) e permitem-nos várias lições. Em primeiro lugar, é importante saber o que procurar. Um leilão de whisky partilha algo com uma atividade de investigação. Por seu turno, investigação implica planeamento. Não é absolutamente necessário, mas aumenta o prazer que se retira do leilão. Imaginemos, por exemplo, que pretendemos adquirir um Yoichi 12 anos. 12 anos. Não é o 10 anos (demasiado banal), não é o 15 anos (quem nos dera), é o 12 anos. O 12 anos não desmerece o bebedor sério. O Yoichi 12 anos é, aliás, o tipo de whisky que devemos ter no nosso armário especial juntamente com o Lagavulin 16 anos ou um Aberlour com a mesma idade. E, convenhamos, o tempo frio está aí. Não queremos ser apanhados desprevenidos com whiskys que se bebem com gelo e fazem lembrar noites frescas de Verão. Ninguém quer isso. Fazendo a investigação adequada, a escolha comprometida, tendo o whisky que merece a nossa luta desenhado no horizonte podemos avançar. Procuramos, encontramos. Lá está ele, em várias garrafas. Vamos para as licitações mais baixas, mas por cautela licitamos também um 15 anos que está com um valor absurdamente baixo (não vai durar muito e dentro de dois dias alguém vai mostrar-nos a nossa pequenez no grande esquema das coisas). Feita a licitação, esperamos. Não ficamos de braços cruzados, aproveitamos o ensejo e vamos investigar um pouco o objeto da nossa procura. Hoje um Yoichi, amanhã um Bruichladdich, assim vamos aproveitando para saber um pouco mais daqueles que nos dão de beber à alma. 

Cada leilão, no meu site preferido, dura um mês, o que dá tempo para várias licitações e contra-licitações até que todos percebemos que já só interessa o dia final. Nesse dia temos de estar perto de uma ligação à internet se queremos ter alguma hipótese. É claro que pode haver logo uma licitação que nos afasta, mas aqui ajuda alguma experiência de poker: até um determinado valor que sabemos estar abaixo do mercado (pelo menos do mercado onde ainda conseguimos encontrar alguns destes whiskys) uma licitação alta pode ter só um efeito psicológico de nos desmoralizar. Nada disso. Se a licitação é alta mas ainda fica abaixo de um valor aceitável para aquele whisky, então é licitar por cima, sem medos, mesmo que por um valor diminuto. Contra-jogada de efeito psicológico, que também não terá grande efeito, mas diverte. 

É possível fazer maus negócios num leilão de whiskys. Claro. Mas é difícil. Desde logo porque se o mau negócio for causado por um whisky de má qualidade em bom rigor é azar e não um mau negócio. Podia acontecer-nos numa compra normal, presencial ou online. Todos as outras hipóteses de maus negócios não têm explicação racional e por isso merecem um lugar especial no nosso coração. Hoje é relativamente fácil fazer benchmarking de preços de whiskys, mesmo dos mais raros, por isso não é difícil perceber quando estamos a licitar acima de um valor aceitável para o mercado. É certo que em casos raros estamos em águas desconhecidas. Por exemplo, queremos um whisky trufado de Islay de um ano específico já um pouco longínquo. Digamos, um Ardbeg de 1982. Mesmo com as maravilhas da internet não é fácil perceber o valor aceitável à data do leilão. E depois há a dimensão afetiva. Quanto estamos dispostos a investir, financeira e sentimentalmente, para podermos deitar mão a um whisky do ano do nascimento da nossa bem-amada? Porém, excetuados estes casos fortuitos, um leilão eletrónico de whisky deixa-nos apenas espaço para maus negócios que aceitamos docemente sabendo que vamos pagar um valor que não devíamos por um whisky que não tem preço para nós. 

Chegado o dia de encerramento do leilão, começamos a olhar para o lugar do armário especial onde vamos colocar a nova garrafa, imaginamos o serão em que o iremos abrir, organizamos na nossa cabeça o encontro de final de noite onde convidaremos aqueles dois amigos capazes de apreciar um Yoichi 12 anos. Ele saberá melhor só por ter sido licitado e ganho. E se o perdermos (como me acontece consecutivamente há seis meses), não perdemos a face: mantém-se o encontro de amigos em torno de um modesto Jameson 16 anos. No próximo mês há mais. E desta vez é que vai ser.

 

Publicado originalmente na revista Bica #3 (2017)

 

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IPA, IPA, Hurra!

Abril 05, 2020

A internet é a melhor anfetamina da humildade. O escritor senta-se em frente ao computador com uma ideia genial, mas num assomo de modéstia resolve googlar o título pensado para a sua crónica. E ei-la, a “Ipa, Ipa, Hurra!”, uma obscura IPA da longínqua e discreta cervejeira brasileira “Froide”. Confesso que googlei já meio convencido que este trocadilho era bom demais para não ter sido já inventado e fico feliz com mais esta coincidência transatlântica na minha vida. Assim, creio que quanto ao tema da minha crónica deste mês estamos conversados: a celebração da IPA. “Uma sugestão diferente para o Verão”, como escreveriam aquelas revistas semanais que tentam sempre fazer tudo parecer espectacular, dos spinners para crianças (look it up) até aos cocktails com ruibarbo (com ruibarbo, por Deus!). Mas no caso, o lugar-comum é apropriado pois dentro da rainha do verão - a cerveja estupidamente gelada - a IPA tem conquistado o meu coração e feito o seu caminho, lá desde as Índias Orientais, pelo meio das cervejeiras artesanais até chegar à I Liga. 

A IPA - India Pale Ale (cujo histórico está bem apanhado na wikipedia, por isso poupem-me) é antes de mais um Ale. E esse é o primeiro aspeto que temos que ter em conta ao pensarmos nela, sobretudo num país em que a maioria das pessoas, mesmo sem o saber, bebe apenas Lager no que toca a tipos de cervejas. A diferença está na temperatura de fermentação. Quente para os Ales, frio para as Lager. Sendo um Ale, é pálido. Ou seja, feito com malte pálido. Pouco mais para dizer aqui. E chegamos então à Índia. Ou dito de outro modo, ao lúpulo. É certo que o nome é India Pale Ale mas o que a Índia nos recorda face a outros Pale Ales é o peso do lúpulo desde o início da sua produção e exportação para a Índia. O que a tornou distinta de outros Pale Ales não foi apenas ter ido para a Índia, mas a Índia ter deixado a sua marca no gosto desta cerveja, frutada e amarga: inicialmente fermentada como vinho para aguentar a viagem até à Índia, foi sendo amaciada para se adaptar ao clima indiano. Eis aqui a beleza da diversidade aplicada ao engenho de bebidas, na linha dos gins tónicos, devido à má relação entre o quinino e a malária, e do sucesso das Sagres Mini em Angola e em outros locais do defunto Império.

India Pale Ale então. Mas India Pale Ale agora? Eis um nome que começou como descrição e é agora uma marca, um nome, um tipo natural, Kripke and all that. Já não quer dizer nada do que quis dizer, quer apenas evocar um passado nostálgico aliado à experimentação da juventude. E por falar disso.

Há uns meses quando provei umas das nossas novas cervejas artesanais dei por mim no Hawaii, o que resultou estranho uma vez que me encontrava no Príncipe Real e a última vez que estive no Hawaii foi há 8 anos. Como não tenho melhor sentido evocatório do que o paladar dei por mim a pensar se teria ou não bebido aquele tipo de cerveja no Hawaii. Olhei para o rótulo e a Sovina dizia IPA. Que seria isto de IPA? Fui investigar a minha ignorância, pela qual desde já me penalizo aqui publicamente, e dei por mim de novo em Kauai perante a descrição da Castaway IPA da Kona Brewing Company (look it up). Afinal, eu sabia o que era uma IPA. Só não sabia que sabia. Foi preciso a loucura das novas cervejas artesanais ter chegado à Europa, e em especial a Portugal, para que recuperássemos o lento declínio em que se encontrava desde o início do século XX a India Pale Ale, que entretanto tinha sido redescoberta pelos americanos. Desde esse dia tenho bebido todas as IPA portuguesas a que tenho conseguido entregar o palato. Para além da Sovina, já provei a Urraca Vendaval da Oitava Colina e a Voragem da Mean Sardine (esta última uma Black IPA!). Ou seja, vou muito no início, tendo em conta as IPA portuguesas que sei existirem, como as da cervejeira Dois Corvos, a letra F da Cervejeira Letra e outras que ainda tenho para descobrir. Muitas são difíceis de encontrar, mesmo procurando, outras esbarram com o meu pouco tempo para as procurar. Mas hei de lá chegar. Aliás, proclamo este verão o verão da IPA! O que me leva ao único ponto importante desta prelecção, a importância da IPA na cultura gastronómica. As grandes já o perceberam. Primeiro a Super Bock com a 1927 Bengal Amber IPA e mais recentemente a Sagras Bohemia IPA. À boleia do sucesso das IPA no setor artesanal e percebendo que é uma ótima cerveja para a canícula, acompanhando bem pratos fortes, ambas lançaram as suas IPA para alargar o espectro de oferta veranil. 

Termino com a resposta à questão óbvia: porquê escolher IPA? Fechemos o círculo, abrindo uma cerveja: a IPA é dos ales mais leves que poderemos beber, o que a aproxima de uma lager, mas há um mundo de diferenças lá dentro a começar pela amargura frutada. Não se pode acompanhar melhor a mudança que o verão sempre promete.

 

Publicado originalmente na revista Bica #2 (2017)

 

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