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Ácido Cítrico

textos dispersos de Pedro Santo Tirso

Ácido Cítrico

textos dispersos de Pedro Santo Tirso

Do bom bebedor, o terror

Março 27, 2020

 

Não há maiores flagelos para o bom bebedor do que a abstinência e o alcoolismo. O bom bebedor está perante um abstémio e um alcóolico com o desespero da tormenta e a ansiedade da calmaria. Sente perturbado aquele equilíbrio que sempre procura na qualidade da bebida, na proporção dos ingredientes, na exata medida do que beber. O bêbado confunde-o, o abstémio merece-lhe pena. Juntos destroçam-no. Chega o bom bebedor a perder a vontade de beber, tal não é a desgraça. Sente como seus os estados extremos daqueles dois arquétipos arcanos. Soluça, contorce-se, ele próprio sentindo assomos de deixar de beber ou de beber tudo. Nada pior. Felizmente, o bom bebedor acaba por acordar deste pesadelo, apercebendo-se que está sentado na sua poltrona bebendo corretos dois dedos de um malte de Speyside com um gota de água do próprio Spey. Medita. 

O alcoólico é à evidência aquele que mais parece aproximar-se do bom bebedor. Visto de fora parece a questão ser apenas de grau, mas não nos deixemos enganar. O grau alcoólico é para o ébrio crónico um baptismo que só acabará com a extrema-unção, já o grau do bom bebedor manifesta-se em opções de enriquecimento civilizacional: quando beber, quanto beber, o que comer a acompanhar, será admissível diluir, e em quê (em quê? em quê?!). O bom bebedor mantém uma relação saudável com a sua bebida, o alcoólico nela adoece pensando que se agiganta. Perde o discernimento da qualidade, da história, dos cultos e ritos, da companhia adequada, da correta postura . Da bebida fica o álcool, como peçonha. O bom bebedor não consegue compreender o apelo solitário do álcool, já o alcoólico vê o mundo através da graduação do volume de éter e nada mais. Há aqui uma confusão entre o prazer de beber e a obrigação de beber que perturba o bom bebedor. É verdade que ambos têm uma percepção aguda do que Joseph Roth chamou “a lenta decadência, a que os bebedores sempre se prestam”, mas por razões completamente diferentes. O alcóolico decai porque o álcool dele se apodera, forçando-o a deixar tudo o resto. Apreciar um bom aperitivo ao cair do sol torna-se para o bêbado ter de beber até cair. O sublime kantiano é para o alcoólico um garrafão de tinto achado por acaso. Já o bom bebedor é lembrado a todo o momento que apenas a partilha da boa bebida com a boa conversa, a boa mesa e a boa cama evitará a decadência latente que está em cada sacar de rolha, em cada carica aberta, em cada mexer de cocktail. É filosoficamente o que separa o alcoólico do bom bebedor: a voragem da decadência. Um cai nela sem remédio nem redenção, o outro percorre-a sem querer deixar-se cair. Isso a ambos os faz sentir vivos.

O abstémio é para o bom bebedor outro bicho, completamente distinto. Oscila entre achá-lo um lamentável ignorante e um pedante dissimulado. Realmente quem não bebe ou não sabe o que está a perder ou está enganando quem queira ser enganado. Eis o que vai na cabeça do bom bebedor quando se preocupa com a figura. Há no abstémio a impossibilidade de completa aceitação. Nem um copo, pergunta o bom bebedor? Não, nem um. Só pode ser dogma, um princípio, uma fé. E então o bom bebedor sente pena. Não confessa, mas sente. Mesmo o mais feliz abstémio o deixa convicto de que é uma felicidade semi-plena, à míngua de umas cervejas geladas sobre o calor alentejano de um grelhado ou um copo de tinto à lareira beirã, rumo a um serão romântico. Reside aí a confusão que no bom bebedor o abstémio inspira: tudo à míngua e nem uma gota de xerez? Que diabos, não é natural. 

Secretamente, é claro, todo o bom bebedor se sente atraído pela abstinência e pelo alcoolismo. São a cauda e a cabeça do dragão, o yin e o yang e todas as dicotomias clássicas e new-age que possamos enumerar. O incontornável Kingsley Amis, habitual por aqui, escreveu várias crónicas a detalhar a experiência de não beber. Horrível, sem dúvida. Mas não resistiu a experimentá-la. Fiz o mesmo, confesso. Deixei-me de álcool. O mais que aceitei foi um brinde, aqui e acolá, durante seis meses. Fisicamente vi a diferença. Passei a tratar de outro modo a lei da gravidade. Mas ao cabo de algum tempo não consegui afugentar a ideia de que há também uma embriaguez de privação. Não tanto uma ressaca contínua, mas habilidade do corpo em se compor de uma outra efusão e assim se alterar a consciência. Há um diálogo fabuloso em Sexus, onde Miller coloca o seu protagonista  a explicar a Ned que a verdadeira embriaguez consegue-se com água. Claro que é um mero exercício de estilo, mas a ideia fascina o bom bebedor ao ponto de querer também ele fazer da sua abstinência um exercício. Vale pelo que descobrimos de nós. Num repente apetece-nos cheirar as garrafas de gin e de whisky, como se de perfumes se tratassem. E em ocasiões sociais percebemos que o abstémio é o parente pobre da paródia. Como conseguirão eles viver, pergunto-me e isto basta-me para que se esfume o fascínio. Já a tentação do alcoolismo é difícil de experimentar: uma vez alcoólico, sempre alcoólico. O bom bebedor não pode admitir isso. Por isso, na dúvida fugirá do diagnóstico. Para ele o alcoolismo é um fim natural. Algo que acontece mais facilmente a quem bebe bem. Algo que pede apenas um azar, um acidente pessoal, uma tragédia familiar, um período de stress. “Leaving Las Vegas” all over again. É fácil simpatizar com Nicholas Cage, é fácil sonhar com Elisabeth Shue, mas o bom bebedor acaba por ficar impressionado com aquele fim. Mesmo sendo aquele fim. É que os alcoólicos tendem a morrer. Dir-me-ão: isso são coisas que acontecem. É verdade. Mas ao bom bebedor a morte do alcóolico parece um desperdício. Não se poderia beber um pouco menos de cada vez e aproveitar para beber um pouco mais longe até ao fim?

De modos que o bom bebedor vive permanentemente acompanhado pela abstinência e pelo alcoolismo. Arriscando a genealogia dir-se-á que são os pais do bom bebedor: passando-lhe os valores, metendo-o na linha, mas ainda assim com Édipo suficiente para se matar o pai e ir procurar uma mãe com que se possa beber.

Há uns meses, no início da minha experiência de abstinência fiquei num jantar de aniversário sentado ao lado de um bom bebedor. Amavelmente querendo servir-me de vinho expliquei que não, que por seis meses não beberia. O cavalheiro tomou pena de mim, perguntou-me porquê. Disse-me que havia que viver a vida como se estivéssemos permanentemente no seu último ano. Assenti a tudo, mas repliquei: é justamente porque concordo completamente consigo que preciso de perceber este estranho mundo antes de morrer. Já o alcoolismo deixarei para a derrota. Se um dia me afundar e desistir tenho para mim que é no alcoolismo que irei cair. Há por isso esta bela certeza, que dá uma certa tranquilidade. A abstinência e o alcoolismo são, sem dúvida, os maiores flagelos para o bom bebedor, por isso viver bem com eles faz parte do prazer de cada gota que se bebe. Cada um deve encontrar a sua forma. De preferência ponderada na companhia de um Yoichi de 20 anos. 

 

Publicado originalmente na revista Bica #1(2017)

 

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...

Março 27, 2020

Numa praia de Naxos, 

um homem de cabelo púrpura

duas vezes nascido 

sonha

 

a grande casa de Tebas

onde a sua mãe nasceu

na linhagem de Cadmo

e Harmonia.

 

E num repente uma outra casa 

Athamas e Ino, 

cumprindo promessa ao 

Senhor de todos os 

trovões, perante o seu 

mensageiro.

 

Trismegisto e ele tão pequeno,

um bebé, indefeso,

descoberto, a loucura de 

Athamas e Ino

sofrendo a promessa ao 

Senhor de todas as 

águias, perante a sua

mulher.

 

Ficou, a loucura.

Não mais a esqueceria.

Não mais a deixaria.

Faria dela uma arte, 

uma religião.

 

Mas não agora, 

não agora,

ainda não.

 

Uma outra casa,

nas montanhas de Nisa,

cheia de ninfas e leite de cabra

surge num frenesi.

Nessa casa há dados e 

piões e pequenos bonecos 

de madeira e de osso.

Os brinquedos de uma 

criança da Beócia.

 

Desfeita, desmembrada por 

gigantes disformes, titãs

chamam-lhes. 

 

O homem, deitado, dormindo

numa praia de Naxos,

com os cabelos púrpura

sobre a areia

sonha

 

em Delfos partilhou o templo

com aquele que é sempre belo

e sabedor,

à Índia chegou triunfante,

à frente de tigres e sátiros

fundou cidades e deitou-se 

com homens e mulheres 

embriagados.

 

Novo abalo, novo tremor, 

o sonho leva-o de novo à 

Senhora da Ordem e do Ciúme,

a loucura agora sobre si, 

não mais memória, mas carne,

mas sangue, mas visão,

mas poder conseguir 

o que matou a sua mãe:

chegar a conhecer o pai.

Em todo o seu esplendor.

 

Descobre o vinho, no sonho

sonha na praia, itifálico 

regressa a Tebas, no sonho, 

treme sobre as areias de Naxos,

o cabelo violeta de fúria,

de fome, da violência 

de ser,

o mais doce, mas também o mais terrível.

Zoe que congrega o tíaso,

e o tio incrédulo.

Despedaçado pela ménades, as mulheres 

que devoram os próprios filhos,

vinho que escorre das parras, sem nunca

nunca, ser mosto, nem fermento,

nem filtrado, nem com água misturado,

nem servido. Sonha.

 

E já transformou piratas em delfins,

fez cair a grande Casa de Tebas e um rei

na Beócia, um templo dividir-se entre a folia

e a razão, mas este homem que sonha,

os cabelos púrpura sobre as areias de Naxos,

com a mulher ali ao fundo,

deitada também________ uma constelação 

o homem que sonha sabe que as casas estão

destinadas a ruína, as casas são uma ilusão.

 

Por cada casa que teve, cada casa sonhada,

lembrada, recordada, uma loucura, uma mania

uma ilusão.

 

Mas________ não.

Não mais!

Não mais!

 

Não há casas, não há casas!,

acorda gritando o homem que sonha. 

E não é um homem, 

______________ nem sonha já.

 

É o décimo terceiro deus, que trocou 

ser o eterno estrangeiro

pela certeza dodecacerta do panteão

pelo fogo da veneranda Héstia, e 

assim entrou gritando, 

________________ já não sonhando

 

Não há casas!

Não há casas!

__________ na maior das casas que houve.

E o panteão não ruiu, lá ficou 

no Olimpo esquecido, uma ilusão, 

uma ilusão.

 

Não há casas, não há casas. 

Só máscaras e passagens.

 

O sonho de Diónisos

 

Publicado originalmente na obra colectiva Casa, editora do Lado Esquerdo (2016)

 

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O corpo que se constrói

Março 27, 2020

 

 

A casa é o corpo que se constrói,

disseste.

E eu, com as nádegas sobre o lajedo 

da porta principal da casa velha,

fiquei pensando no teu clarão.

 

Apeteceu-me replicar,

que não. 

Que a casa não se constrói,

arrenda-se ou compra-se.

Eu mesmo habito,

um velho primeiro andar,

remodelado,

na Calçada de Sant’ana, 

ali à Baixa,

Largo de São Domingos.

Mas já habitei tantas casas 

por essa Lisboa fora,

sem nunca as ter construído,

nada meu, 

que tenha levantado do chão.

 

Depois, já com as nádegas frias,

do lajedo da porta principal,

da casa velha, na rua acima,

aquietei-me 

levantando-me

rumo ao quintal.

 

Talvez a tua construção seja outra

Não de tijolos e cimento,

estuque e argamassa, 

mas a possibilidade de definirmos 

os órgãos que habitamos,

a pele com que nos vestimos.

A carne que encarnamos.

 

Sentei-me debaixo do limoeiro

do outro lado do lajedo da porta principal

da casa velha, que o avô construiu,

e que o pai reconstruiu e 

que eu agora planeio remodelar,

para ti e teus irmãos,

meu filho.

 

E pensando ainda no teu clarão, 

à medida que atravessei a casa,

e vi ao fundo os livros na biblioteca,

e se assomou pelo nariz à minha nuca

um cheiro a ensopado,

vindo da cozinha, 

concluí que sim.

Que a casa é o corpo que construímos.

 

Não há outra forma,

se o corpo é uma forma que não concebemos,

nem de sortes mandamos.

A casa é a primeira tentação que temos

de nos incorporarmos para além do corpo,

de nos protegermos, defendermos, 

assomarmos,

construindo uma outra carne, 

outras veias, outra linfa,

outro coração batendo e outro 

estômago digerindo, outros rins,

outra espinha e outra hipófise. 

Para desta vez podermos mais,

doermos menos, e tudo o que o corpo 

que nos deram não nos permite

ou nos provoca

nos tira ou nos obriga,

respondi-te, 

sentado, de novo, com as nádegas,

sobre o lajedo frio da porta principal

da casa velha.

 

 

Publicado originalmente na obra colectiva Casa, editora do Lado Esquerdo (2016)

 

 

 

A medida das coisas (mas sobretudo do Dry Martini)

Março 25, 2020

Quando o João me convidou para escrever sobre bebida, fiquei naturalmente contente. Eis um tema sobre o qual tenho feito uma extensa reflexão, um profundo trabalho de campo e uma elaboração teórica aturada. Contudo, parecia-me um pouco limitado escrever apenas sobre bebida. Atenção, não há qualquer problema com bebida desacompanhada. Mas até isso tem arte. A bebida só faz sentido no contexto do bebedor. Daí que tenha pedido ao João para elaborar um pouco sobre seu convite e poder falar rigorosamente sobre “bebidas e outras coisas”. Creio que assim ficamos todos mais descansados e esclarecidos. Mas logo para começar o João não me deu tarefa fácil. Estava eu a pensar em escrever sobre o Dry Martini e Luís Buñuel, uma ligação tranquila, quando ele me diz que o tema deste primeiro número seria a luz de Lisboa.

A luz de Lisboa a mim sempre me pareceu normal. Só quando os regressos a casa começaram a acumular-se dei por mim a pensar que se calhar havia qualquer coisa de especial nesta luz. A princípio ocorreu-me que a única especialidade era ser muita. Lisboa é uma cidade com sol boa parte do ano, é normal que a sua luz se faça notar. Mas a verdade é que muitas outras cidades podem dizer de si o mesmo e nem por isso parecem ter a mesma luz de Lisboa. Talvez o segredo, tenho vindo a pensar mais recentemente, esteja na combinação da luz com outros ingredientes. Esta ideia surgiu-me quando revia o Charme Discreto da Burguesia, de Luís Buñuel, e me lembrei de algo que ele afirma na sua autobiografia: “os conhecedores que gostam dos seus martinis muito secos sugerem que se deixe apenas brilhar um raio de sol através de uma garrafa de Noilly Prat antes de atingir a garrafa de gin”. Fiquei a pensar em brilhos e reflexos e de como a luz de Lisboa resulta de uma boa combinação de céu limpo e o enorme estuário do Tejo. Talvez seja este o segredo: uma luz que é simultaneamente sol e reflexo das águas do rio, com aquele grande mar da Palha, que vem de Alhandra até ao Terreiro do Paço, a dar uma segunda camada de luz ao nosso olhar.

Fico a pensar na luz de Lisboa, mas não desisto de Buñuel e do seu Dry Martini. Como quase tudo em Buñuel, realizador genial e subversivo, há ali muita transgressão e muita secura. Na verdade, a versão de Buñuel é uma versão tão seca quanto poder dizer-se que bebemos gin apenas com uma lembrança recente de vermute e umas gotas de Angostura (há um vídeo no youtube do próprio a preparar a sua receita, se duvidarem de mim). Mas não se trata um vermute qualquer, o que surge como um paradoxo. Apesar do gin ser o espírito ingerido ele não aparece nomeado por Buñuel, já o vermute, que apenas dá o mote para a descontração que há de vir, tem um nome: Noilly Prat. Há algo de bom nesta precisão pois serve de esclarecimento a um dos maiores equívocos da história dos cocktails (highballs, se quisermos ser rigorosos): o Dry Martini apenas por coincidência tem algo que ver com o vermute de nome Martini. Isso mesmo nos recorda Kingsley Amis no fundamental Everyday Drinking, a que tive que recorrer para temperar a transgressão iberoamericana de Buñuel com um pouco de humor inglês. O mestre inelutável de qualquer amante da bebida, à semelhança de Buñuel, era também um homem preocupado com as medidas para um Dry Martini perfeito. Ele refere quatro partes de gin e uma parte de Martini Rossi seco, devendo notar-se que também Amis deixa ao bebedor a dilacerante escolha do gin (“any nationally known gin is suitable”), mas incute-lhe o seu vermute (“but the vermouth must be Martini Rossi dry). Há aqui algo de profundamente antigo, nestas visões do Dry Martini, em que o gin serve apenas de émulo do álcool, quase sem variações ou identidade, e é o vermute que lhe dá o caráter e transforma o gin em algo que merece ser bebido. Como estamos longe da comoção e do transtorno que se abateu sobre a civilização ocidental há um par de anos erigindo o gin em moda de cuidados íntimos, com centenas de variedades e milhares de produtos complementares! Torna-se hoje tão difícil escolher um gin como um champô, flagelo pelo qual, manifestamente Amis e Buñuel não passaram (e vou deixar para outra ocasião a opinião de Amis sobre o gin tónico). O inglês, porém, admitia outras proporções. Ainda no seu Everyday Drinking referia que era comum ver-se uma divisão de 16 partes de gin para uma parte de vermute. A aproximação a Buñuel é visível à medida que o vermute se rarefaz, mas estaca furiosamente quando Amis admite servir um Dry Martini “on the rocks”. Que pensamento absurdo. Buñuel dizia que não havia nada pior que um Dry Martini aguado. E tem toda a razão. Não sei o que terá passado pela cabeça de Amis, mas entre o humor de Amis e os humores de Buñuel não restam dúvidas de que em matéria de gelo no Dry Martini devemos ficar com o nosso irmão surrealista. O inglês, contudo, redime-se: além de, em circunstâncias especiais, quase se juntar à receita de Buñuel (“Numa emergência consideraria pedir bastante gin e pouco vermute, mergulhando o meu dedo no vermute e mexendo depois o gin com ele”), a receita final de Amis para um Dry Martini é algo que quase podemos aceitar, não obstante a água e as cebolas: “O melhor Dry Martini conhecido pelo homem é o que eu faço para mim próprio. Na parte mais fria do frigorífico tenho uma garrafa de gin e um pequeno copo de vinho meio cheio de água que se permitiu ficar gelada. Quando chega a hora, encho metade do espaço remanescente com gin, salpico umas quantas gotas de vermute e junto um par de cebolas de cocktail, daquelas pequenas, brancas e duras. Isto sim é uma bebida”. Enfim, chamemos-lhe uma versão excêntrica.

O Dry Martini, porém, é o Moby Dick dos cocktails: toda a gente o conhece (the name is Bond, James Bond), mas ninguém o bebe. É compreensível. Ora porque é caro, ora porque na discoteca da moda não o fazem, ora porque tem álcool a mais (santo deus), o Dry Martini é hoje uma bebida mais de páginas de revista (aqui o tendes) e de ecrã de cinema do que de mesa de bar. O seu ingrediente principal vê-se e bebe-se, claro. Mas sempre amansado por 20 cl de água tónica (quando não mais). E aqui está a explicação: o Dry Martini é gin perfumado em vermute não se deixa domesticar. E ninguém tem tempo para beber uma bebida a sério nos dias que correm.

Para os que ainda bebem cocktails, contudo, não há melhor que o Dry Martini. Tirando o Vesper, claro, a que voltaremos noutro dia, o Dry Martini recusa totalmente a facilidade adocicada da maioria, pedindo ao vermute apenas um lampejo de doçura, insuficiente para emascular a secura do gin. A vida tal como ela é, mesmo que não tenhamos tempo para ela, o que é, quotidianamente, o grande inimigo do Dry Martini: a impossibilidade e a incapacidade para vivermos uma vida à altura deste cocktail. 

Regresso a Lisboa. Também ela, com o incremento recente de turistas que enxameiam a cidade, e já não apenas o centro, perde a possibilidade de ser descoberta na medida imposta por um Dry Martini: cheirar o perfume adoçado do bulício da Baixa-Chiado mas beber a firmes tragos a cidade dura, seca e cheia do caráter, que se estende de Sacavém a Algés. Mas regresso também a Buñuel e a O Charme Discreto da Burguesia (a uma das suas cenas mais memoráveis, com burgueses e um motorista) para recordar, à luz das lições que Lisboa nos dá sobre a medida e o modo de uma bebida, que só há duas maneiras de beber um Dry Martini: a certa e a errada. Ambas são boas. 

Podemos beber um Dry Martini de um trago antes de uma loucura a ser cometida, sob um céu e um espírito nublados, e que diabos! ao menos será uma loucura bem temperada. Ou podemos beber um Dry Martini, lentamente, a leves goles, a caminho da contemplação que ele nos proporciona. E que é melhor acompanhado em terraços, ao fim do dia ou em noites de muita lua. E se posso ainda pedir mais, com a luz, solar ou lunar, de Lisboa. Buñuel aprovaria. 

 

Publicado originalmente na revista Bica #0 (2016)

Ryuichi

Março 25, 2020

sobre uma entrevista de Ryuichi Sakamoto

e

"Mr. Christmas Mr. Lawrence" de Nagisa Oshima

 

  1. Cannes

 

 

um japonês e um inglês entram num bar...

(...não, parece uma anedota)

 

um japonês e uma esfinge loura entram num bar...

(...não, demasiado presunçoso)

 

um japonês e uma estrela pop entram num bar...

(que se lixe, foi mesmo isso que ele disse na entrevista)

...em Cannes, 1983.

 

A atração imediata da sala do julgamento

dá lugar ao espanto: 

onde estava um homem simples

está agora um astro.

 

O japonês olha para o modo de andar do inglês 

e recorda

eu pratico andar há anos.

 

Ao almoço 

________(um bife tártaro para o inglês)

o japonês pensou ainda que talvez

as flores soubessem melhor.

 

Já não estávamos no Pacífico,

isto não era um set, 

mas sobre o inglês podia o japonês

aqui em Cannes,

fazer a mesma pergunta:

espírito mau ou ser humano?

 

II. Pacífico

 

Lutas coreografadas 

 

como um bailado.

Uma faca contra uma espada.

Se há um crime tem de haver castigo.

Não importa a quem

_______________ (a culpa há de expiar-se)

O crime não pode ficar impune,

a ordem tem de ser mantida

____________________ mas há sempre um deus da subversão

 

enterrado vivo,

a cabeça de fora

como uma planta que brota do chão

um fogo humano.

 

III. A memória

 

o beijo do espírito 

sobre a face da ordem

o que produz?

uma metáfora:

 

um japonês corta uma madeixa de cabelo, 

a um inglês

 

há muitos modos de adoramos,

 

muito modos de pedir autógrafos.

 

só a memória luta contra as estrelas negras.

 

 

Publicado originalmente na flanzine #12 (2016)

 

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De Ponta Delgada a Galway

Março 25, 2020

Aterro em S. Miguel e apanho um táxi para Ponta Delgada até ao Largo da Matriz. Olho a Igreja de São Sebastião para confirmar que cheguei. O céu está cinzento, mas é final de tarde e confunde-se com o crepúsculo. O mais certo é de manhã ter estado céu limpo. A cidade acalma e apenas algumas zonas preparam a noite. Daqui até Temple Bar é perto. As ruas vão ficando desertas. Faço o check-in no Paramount e são dois passos até Porterhouse. Normalmente, na dúvida, peço Guinness, mas aqui a única dúvida é que variedade de cerveja escolher. Porterhouse é a casa de algumas das melhores cervejas de Dublin, produzidas pela companhia com o mesmo nome. Vou pedindo - primeiro uma Porterhouse Red para abrir o palato, depois uma Oyster Stout e finalmente uma Wrasslers 4x para manter a máquina em movimento - e vou observando o bar encher. Chegam tantas pessoas como eu próprio. A primeira coisa a fazer quando se chega à insularidade é recolher a dispersão a que alguns de nós andamos sempre condenados. Há pois um perfil psicológico para esta viagem. Escreve-vos o tipo clínico que vai à insularidade como quem vai às termas: em busca de um paliativo para a sua condição. No caso, dispersa e desfocada. Se para muitos a insularidade é um tormento que os aprisiona e limita, gerando toda a espécie de fugas reais ou ficcionais, para mim a insularidade sempre foi uma terapia. Cada vez que chego a uma ilha insular começo a sentir-me regressar ao corpo, como se o mar que está ao redor desta terra se tornasse uma película de mim. Não é fácil encontrar ilhas assim, com este efeito. Com os instrumentos para permitir isto. E mesmo quando encontro, não deixo de ficar perplexo com os efeitos díspares que produzem noutras pessoas.

Ilhas. Como é que tudo isto começou? Não me recordo qual foi a primeira ilha que visitei. Duvido que tenha sido em Portugal. Só fui aos Açores e à Madeira já trintão, às Berlengas nunca fui. As ilhas do Algarve apenas as visitei já universitário e à ilha do Pessegueiro tinha ido alguns anos antes, a nado. Então, qual terá sido? Tenho que apelar. Um telefonema para o meu pai informa-me de Manhattan. Manhattan. Com o meu pai. A caminho da Disneyworld em Orlando, Florida, Estados Unidos, anos 80. Manhattan. Eis a minha primeira ilha. Só que o tempo mostrar-me-ia que uma ilha não se confunde com a insularidade. As únicas ilhas que interessam como tais são as insulares. São essas ilhas que quero lembrar. Quem se lembra que Manhattan é uma ilha? Quem sente a insularidade de Manhattan?

Depois de Manhattan veio a Grã-Bretanha, ou talvez melhor, Londres, onde a insularidade é também quase impossível. O mundo está cheio de ilhas se continentalizaram, que abandonaram a insularidade. Que se abandonaram. E creio que não há nada de errado nisso. Talvez fosse o seu destino desde o início. Pelo contrário as ilhas insulares foram descobertas afastadas da sociedade e assim permaneceram, isoladas. Criaram a sua própria sociedade, que só por ilusão parece ser a mesma que uma outra, de um mesmo país ou cultura. As ilhas que são insulares mantêm-se afastadas da convivência porque criaram a sua própria convivência. Só o percebi mais tarde, quando em 2001 aterrei em S. Miguel, Açores. Não o sabia então, mas o que compreendi da insularidade nessa viagem começara a compreendê-lo em 1997 quando estivera em Dublin. E confirmá-lo-ia, quanto à Irlanda, quando em 2013 a atravessei de Este para Oeste, de Dublin rumo à baía de Galway. A partir de São Miguel percebi que só algumas ilhas são insulares. Só algumas ilhas continuam a manter a fronteira primeira, do início dos tempos, a separação da terra e das águas, que cria a insularidade que não se basta com a geografia e é também da consciência. Entramos nelas, nessa insularidade, como num convite a superarmos o tempo e o espaço que convergem sobre nós. Toda a insularidade é um convite à recriação. Senão não é insularidade. O sentido é a única questão. Para fora ou para dentro? Essas ilhas, como os Açores ou a Irlanda, passaram a perguntar-me continuamente. 

Saio de Porterhouse já tarde, pouco antes do fecho, e deambulo pelas ruas. Acabo na marina de Angra, indeciso sobre o caminho a tomar, dou a uma esquina e estou nos Mosteiros, assusto-me, viro noutra, e estou em The Weir, Kilcolgan, para comer umas ostras no Moran’s, junto ao Atlântico. Talvez tenha bebido demais. Volto ao Paramount e durmo uma noite descansada na Pousada de São Sebastião, vendo o Monte Brasil da minha janela. O último pensamento antes de adormecer é o de que, contra todos lugares comuns sobre as semelhanças entre os Açores e a Irlanda o que mais as aproxima são as suas diferenças. As formas distintas como contribuem, ainda assim, para recortar a insularidade que tudo agrega, como uma força centrípeta rumo ao corpo e ao pensamento.

Há pois na insularidade, comecei eu a pensar em 2001, uma verdadeira filosofia. Como todas as grandes filosofias ela começa pela física a caminho da moral. Da geografia para a psicologia. Mas já lá vamos.

Acordo. O que primeiro me impressionou nos Açores foi o céu. Não muito diferente do que fora a minha experiência de Dublin em 1997. Talvez tenha sido pelo céu, quatro anos volvidos, que comecei a juntar os Açores e a Irlanda. Uma vez acesa a centelha é difícil distinguir entre o paralelo encontrado e o paralelo forçado. Sobretudo num tema cheio de clichés. Até hoje não sei o que os Açores e a Irlanda têm realmente em comum para além dos lugares-comuns: o céu e o verde e o mar. Toda esta física, mesmo com as diferenças de temperatura é facilmente enganadora. Damos por nós a olhar para uma mão, enquanto a insularidade, ilusionista, faz o seu truque com a outra.

É verdade que os Açores e a Irlanda têm muito em comum. Tiremos isso do caminho. O céu e o verde e o mar. E são ilhas, claro. São ilhas. Mas nada disso diz da insularidade. 

É verdade que os Açores e a Irlanda são verdes, como está vestido de verde a mítica figura do duende irlandês no fim do arco-íris, guardando o seu pote de ouro. Não há como contornar a biologia. Três partes de água para uma parte de terra e temos a profusão das cores com o verde a imperar. Mas há mais. O verde das ilhas, sim, mas os vários tons de azul do mar, aquela alternância de reflexos bicolores entre o cinzento e o azul do céu. O mar cerca-nos e o céu fecha-se. Resta-nos o verde, como um fundo de estúdio sobre o qual podemos projetar o que quisermos. Estamos nos Açores e na Irlanda condenados a enfrentar-nos. Previna-se quem tem nisso um pânico, prepare-se para quem tem nisso prazer. Não estamos apenas isolados. Ou, talvez melhor, nos Açores e na Irlanda o isolamento é uma redundância geográfica. Há um convite irrecusável a tomar (a trocar?) a consciência do corpo pela consciência no mundo.

É verdade que os Açores e Irlanda são as ilhas que lembram o mar, que nunca nos permitem esquecer o mar. Nessas ilhas andamos permanentemente com a promessa das praias, das falésias, dos promontórios, dos cabos, das enseadas, do azul ondeado. O mar, entre nós e uma mínima mudança no horizonte. A primeira vez que senti isto foi nos Açores, no tal princípio de século. São Miguel, mas também Terceira, Faial, Pico e São Jorge. A minha primeira viagem açoreana, com meio grupo oriental e quase todo o grupo central (até hoje a Graciosa escapa-me). Em todas elas o mar esteve sempre ali. Mesmo no interior senti-me sempre em trânsito para o mar, para a costa. Há uma proximidade aparente entre o ilhéu e o habitante do litoral, esse contato sempre próximo e potencial com o mar. Mas ela esfuma-se quando nos tornamos ilhéus por uns tempos e percebemos que não temos o interior como ponto de fuga, que o interior está sempre consumido pela imensidão do mar que o rodeia. Em boa verdade vos digo que o que distingue o ilhéu de qualquer continental, mesmo dos que habitam o litoral, é a suprema consciência do mar como a envolvência de tudo. Tal como a cegueira, esta plenitude do mar apura. Mas não os sentidos. A alma. É impossível não falar de alma a propósito dos Açores e da Irlanda. Como é impossível não falar de Deus.

É manhã e preciso de me por à estrada. Aponto para Oeste, sempre para Oeste, rumo ao centro do Atlântico, preparo-me para sair de Ponta Delgada e apanhar a M6 que a liga a Galway. A ideia é almoçar pelo caminho e levar este pensamento de Deus pela ilha fora. Deus, evidentemente, é o Grande Insular. Há um livro que adoro do filósofo Henry Corbin, chamado L'Imagination créatrice dans le soufisme d’Ibn’Arabî. O seu título na tradução inglesa é perfeito: Alone with the Alone. Ajuda a saborear a perfeição saber que se trata de uma obra sobre misticismo, sobre um dos expoentes máximos do misticismo islâmico. Ora a insularidade do místico é talvez a que melhor se compara à insularidade das ilhas. Estamos sozinhos com a solidão. Seja Deus ou nós próprios. O que vai dar ao mesmo. Deus é uma presença comum nas ilhas. E é difícil não ver o seu esplendor no modo como o catolicismo fervoroso convive com as antigas tradições pagãs. Secretamente acredito que todos os ilhéus são místicos. É impossível mediar Deus na cascata do poço do bacalhau, nas Flores, ou nas florestas de Connemara. É desnecessário. Os Impérios da Terceira ou as velhas capelas românicas da Irlanda são apenas pretextos para encontrar Deus de maneiras peculiares, seja apelando ao Santo Espírito, seja rogando a São Patrício.

Pelo caminho paro para almoçar. Tinha marcado de véspera um cozido no Miroma das Furnas e quase ao chegar percebo como gosto nos Açores e na Irlanda da supremacia do campo face à cidade. O modo como as florestas, os pastos, as terras de cultivo têm o domínio da paisagem e as cidades são pontuações desta história onde conseguimos demarcar bem a entrada e a saída, sem a continuidade genérica das grandes metrópoles, que tudo engolem e aglutinam. Este equilíbrio de experiências da paisagem ajuda a trazer à insularidade açoreana e irlandesa uma ritualização das vontades e dos propósitos. Sei por que estou no campo, sei por que vou à cidade. Sei por que vim às Furnas comer um cozido, sei por que sigo agora para Kilbeggan para comprar uns whiskies para a viagem.

Há que escolher um whiskey irlandês para a ocasião. No caso, Connemara Turf Mór. O whiskey irlandês é diferente. A começar pela palavra, com um “e” a mais entre o “k” e o “y”, talvez a lembrar que este é um whiskey do Éire. E não de outro lado qualquer. Destilado três vezes, para ficar mais suave, mesmo quando tem turfa em valores elevados, para que nunca nos esqueçamos do mar. Como se fora possível.

Estou a meio caminho. Rumo à baía de Galway, com a floresta de Connemara para Norte e a Fajã Grande para Sul. Tenho uma casa antiga de pedra à espera na Aldeia da Cuada e já antecipo o final de tarde, a ler no alpendre, faça chuva ou faça sol. 

Por falar em lugares-comuns, sento-me na sala de provas da destilaria, antes de partir, e penso como a insularidade afeta até a língua. A língua falada, claro. Basta ver como o português dos Açores e o inglês da Irlanda souberam adaptar-se aos seus limites e inventar uma singularidade (é verdade que o Gaélico é toda outra conversa). Mas também a língua escrita. É impressionante a quantidade e a qualidade de escritores que os Açores e a Irlanda produzem.

No ano em que primeiro visitei Dublin e a Irlanda, Seamus Heaney havia ganho o prémio nobel da literatura. Era a quarta vez que a Irlanda o ganhava. Mas talvez o que mais importe são os grandes escritores que não ganharam. Como importa nos Açores a sua profusão de escritores de todas as disposições: poetas, ensaístas, romancistas. Para além de Antero. A escrita parece ser uma das armas preferidas para açoreanos e irlandeses enfrentarem a sua insularidade. Faz um sentido completo: como a emigração também ela pode ser uma fuga; como Deus também ela pode ser um encontro. É fácil encontrarmos a insularidade nos açoreanos de Nemésio e nos irlandeses de Joyce. A sua insularidade é, à vez, a terapia que aqui evoco e a opressão que em outros me fascina.

Como Vincent Vega bem disse em Pulp Fiction: “It's the little differences. I mean, they got the same shit over there that we got here, but it's just...it's just, there it's a little different”. A ouvi-lo na minha cabeça chego à praia da Fajã Grande e estaciono. Saio do carro e caminho até às grandes pedras que delimitam o mar. À minha frente todo o Atlântico até ao Novo Mundo. Está um pouco mais de calor aqui do que em Galway. Talvez por isso não se destile aqui nada muito forte. Compensa-se isso com um certo spleen e um excelente Verdelho.

Sláinte. Que é como quem diz, à saúde da insularidade.

 

Publicado originalmente na revista grotta #1 (2016)

 

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Por que é um corvo como uma escrivaninha?

Março 25, 2020

Chapeleiro Maluco

Alice no País das Maravilhas - Lewis Carroll

 

 

O meu cabelo quer um corte

pensei, pela manhã, ao acordar ao espelho.

 

A caminho da barbearia cá do bairro

ocorreu-me

por que é um corvo como uma escrivaninha?

 

Pensei em escrever um tratado,

mas estava atrasado para as aulas

e anotei no caderno

ver Outono em Pequim.

 

Neste estilo duvidoso, 

entre Junho e Outubro

senti uma grande vontade de abrir o externo

e conversar de peito aberto

com toda a gente que passasse.

 

É preciso acordar no fim das regras

e fazer soar as trombetas sem misericórdia 

rumo àquela liberdade verdadeira 

que só recordamos de sonhos e

nos levam por medo de repente

para que não possamos ser inteiros.

 

Que diria, de chávena na mão,

chapéu na cabeça, relógio de bolso,

uns sapatos sem polainas, referidas apenas por 

dever de métrica, e o externo desossado?

Não é fácil ser verdadeiro sem ajuda,

sem chá, ou paipolas, ou outras flores

e uvas.

 

Todas as películas exóticas,

com que se filtram os nossos dias

servem tão-só aquele velho propósito 

conservador

de conservar desmembrando 

os revolucionários gestos com que construímos 

a norma

-lidade.

 

Da regra ao princípio vai uma ponderação 

do caso concreto. Antes assim que assado,

antes um morcego piscando, antes um 

relógio que só é calendário. Antes tudo isto 

do que

não saber como chegámos aos três filhos,

à hipoteca, à carreira precária, à família 

emprestada, às linhas do metro, às férias 

de pacote.

 

Este meu chapéu alto, que guardo no fundo

de um armário esconso no segundo piso de 

uma casa antiga, que já foi prisão e está feita

de tijolo, é só uma metáfora que uso em casamentos.

Significa: há um momento em que nada é verdade,

tudo é permitido, Kripke com Witt, e Carroll com 

Dio. E no fim do peito aberto haverá um silêncio

perfeito (ou outra coisa qualquer) sempre repetindo

que só há ordem se aceitarmos os estrangeiros e

é mais fácil viver se soubermos rodar à mesa.

 

 

 

Publicado originalmente na obra colectiva Persona, editora do Lado Esquerdo (2015)

R u r o u n i Kenshin

Março 25, 2020

Himura Kenshin

Rurouni Kenshin - Nobuhiro Watsuki

 

 

 

salvou-me a vida,

um dia, em Agosto.

 

Como salvou a vida de tantos,

(e tantos matou)

assim a minha salvou.

 

Foi numa pausa para lanche,

a meio de um dia quente,

em que tomei a lição

 

como uma epifania cansada

à última milha.

 

A sua espada de gume invertido

ensinou a minha fúria a ser fluida.

 

A sua leveza tomei-a minha.

 

E a prontidão do seu punho

do engenho a fiz própria.

 

Salvou-me a vida, um dia,

quando o caos a tentava

ganhar-me ao tempo certo.

 

Himura Kenshin apresentava fraca figura

simples, desmazelado.

 

Caminhava

para expressar andando

a passagem do tempo pelo corpo.

Vagueia. Mas para a frente.

Se pára é porque outras coisas se movem:

o coração ou a espada.

 

E se depois corre

o coração ou a espada desaparecem,

invisíveis aos nossos olhos,

desabituados dos desafios do tempo

em que as emoções se movem mais depressa

do que a luz.

 

Nesse exacto momento há um exacto ponto

onde convergem passado e futuro

e tudo se justifica numa presença

 

sem memórias nem esperanças,

apenas acto.

 

assim me salvou Himura Kenshin.

 

 

Publicado originalmente na obra colectiva Persona, editora do Lado Esquerdo (2015)

 

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Uma espécie de estranho

Março 25, 2020

Some kind of stranger

The Sisters of Mercy

 

"And yes I believe in what we had
but words got in the way"

 

Some kind of stranger, The Sisters of Mercy

 

 

não sei por onde começar senão assim:
não há nada de errado na solidão
se
tu nunca te sentes só, se
tu és habitada por vozes, se
tu te sentes na companhia
do mundo.

 

"when placed against the feeling"

 

talvez seja isso: a solidão por vezes
confunde-se com o mundo, e
a estranheza dos outros não é
senão uma forma de presença:

 

os outros como o Outro contínuo

 

"come here I think you're beautiful
my arms are open wide"

 

e talvez tenhas até a sorte
__________ (um sortilégio?)
de alguém ser a tua solidão.
Estar em ti como o infinito
e sem porquê.

 

 

Publicado originalmente na obra colectiva Mixtape, editora do Lado Esquerdo (2013)

Este amor

Março 25, 2020

This love

Craig Armstrong feat. Liz Fraser

 

 

Talvez se possa morrer muitas vezes, dizes

Em vez de se ir morrendo aos poucos, até 

à morte.

 

Cada vez que trocamos de amor, dizes,

Senão morremos, matamos um pouco.

E cada vez que __________________

atraiçoamos aquele velho princípio, em 

nome de uma necessidade urgente, 

morremos, certamente.

Dizes.

 

Tens razão. Este nosso amor mata-nos

a cada final de dia, pois, para nós,

já não há dias nem noites. Apenas 

um longo dia contínuo. Amamo-nos,

por isso, entre todas as mortes,

entre todas as traições, entre todas

as mudanças. Este amor não

significa nada. Este estranho amor

morre muitas vezes. E renasce,

estranhamente, sem porquê.

Como um longo dia contínuo.

 

 

Publicado originalmente na obra colectiva Mixtape, editora do Lado Esquerdo (2013)

 

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Três árvores

Março 25, 2020

Margarida

 

“Nunca fui capaz de ensaiar 

 as dobras 

 meticulosas na folha branca”

 

A noite continua a parecer-te banal

se não te possui a vontade de

seres arrebatada. Se não houver uma

história, uma versão da tua vida

menos arrumada, simplesmente mais

apaixonante. Apenas para que possas 

desfigurar-te. E seres própria.

Se assim o entenderes.

 

Maria

 

“quando neste lado da fala não há janelas para o silêncio

 fica um arrepio de insónia a escrever vazios”

 

há uma geografia secreta por dentro

dos passos da cidade velha e dos

encontros nos bons bares e nos recantos

das lajes. Bebidas somos um modo

de ser deusas: pagãs, serenas

procurando testemunhar com saciedade

a fraqueza dos homens. As horas

passam no velho relógio do café

e nem por isso desistimos. A boca

aberta continua a ser uma promessa. E

a forma como renegas a poesia faz

de ti o meu amor.

 

Joana

 

“Elk moment

 verzinken we

 en vallen we in het puin.”

 

para ti a linguagem tem que ser ferida

e

nem pensar em curá-la. Tu és um

projecto lento de cicatriz. Antes

um passeio pela gramática do corpo

aberto aos golpes das rosas, veias

e linfa transformadas em alfabeto 

e sintaxe, abertamente afrontando

a carne e o pensamento. Nada disso.

Ao invés, uma pornografia das palavras

nua, gratuita, oferecida e reiterada.

uma linguagem vegetal que se tornou

minério pelas fraquezas do corpo.

 

As angústias ossificam o corpo,

tanto como a linguagem o liberta

 

Ages porque as palavras te excitam

e jogas porque as palavras te conhecem.

 

 

Publicado originalmente na revista A Sul de Nenhum Norte #5 (2012)

Variações

Março 25, 2020

Para tentar a solidão

 

Para tentar a solidão tenho falado com os mortos:

o outro de mim que morreu faz tempo

o meu outro pai que o cancro levou há pouco.

 

Vamos. Conversando.

Assim são as ruas. Que passam por nós.

E não tanto. Nós que passamos pelas ruas.

Nas passadeiras, nas arcadas, pelas montras.

 

À noite é mais fácil: há o silêncio do sono

E os acordados, eu e os mortos, convencem-se melhor.

 

Há vida a mais nas nossas vidas. E não o percebemos.

Não cultivamos a solidão ou a morte o suficiente

para que possamos compreender o terror

provocado pelo sorriso dos nossos belos filhos.

 

 

Só para começar

 

Só para começar podemos chamar-lhe beleza

ao modo

um sentido 

ao modo, como as formas exteriores e,

animados, os gestos, de específicas mulheres

____________________________ e homens

se compõem como encanto e escárnio

da razão corrente. Apenas para começar

pois, explicação dada, assim:

 

se uma específica mulher_________ou homem

provoca encanto e o abandono da razão comum,

podemos aceitar

________________nomear o fenómeno: beleza?

 

Parece-me, há já muito tempo,

outra coisa: uma mutação inexplicável

da nossa solidão, que toma para si mais um corpo

sem se extinguir.

 

 

É curioso como...

 

É curioso como o amor transforma a natureza

____________________________da beleza.

 

Não falo de quem ama feio bonito lhe parecer

____________________mas de algo diverso.

 

No metro, duas mulheres muito belas. Destacadas

por dia de gente invulgarmente feia_____e suada.

(parece que se realizara uma maratona)

A beleza física, à boca das outras, perturba.

E conduz, podendo a alma (e dizem, também o corpo)

ao enamoramento_____________contudo, se amamos

parece já a beleza, perturbadora apenas, nada mais.

Sem a promessa do amor por vir, já tomados estamos.

 

Talvez se possa formular que a beleza

________________________nas pessoas já amantes

demonstra que na solidão de cada um

________________________ cabe apenas mais uma.

Mesmo que toda a beleza, perturbando.

 

 

Naquela altura discutíamos

 

Naquela altura discutíamos deus

porque todos nós o desconhecíamos

mesmo os mais católicos 

e eu, à noite, ao deitar-me

sempre sozinho 

estava longe de imaginar

que

deus é a solidão.

 

Depois dela, a consciência de nós

é absoluta. E

tudo o que nós somos, evidencia-se.

 

Em tudo ela está e tudo sabe,

tudo pode, a solidão de nós.

 

Verdadeiro mistério da fé.

 

Publicado originalmente na revista A Sul de Nenhum Norte #4 (2011)

Três poemas solitários a caminho do Cais do Sodré

Março 25, 2020

British

 

sobre a mesa, repito-me:

uma pint de Guinness e um prego,

por favor, e mais uma pint 

de Guinness e um prego. À minha

 

frente, uma inglesa sardenta,

cabelo de cobre, olhos azuis, e

eu repetindo-me sobre a mesa:

uma pint de Guinness e um prego,

por favor, e escutando as 

conversas em volta, como tem que ser

o rapaz feroz, os velhos habituais e

mais uma pint de Guinness e um prego

 

porque só a repetição permitir apurar

até à medida certa a solidão.

 

São Paulo

 

às quatro da manhã raramente

está aqui alguém, só de passagem.

eu, pelo contrário, gosto de sentar-me

porque o meio da madrugada vai bem

com estas pedras e estes sentimentos

 

mesmo que me recordes o resto

da noite, aqui perto, por ali,

entre os corpos organizados e 

disponíveis, a língua e a conversa

decorada, essa memória

não chega. Nem tu

 

a meu lado sobrevives à 

solidão deste lugar.

 

Ibo

 

alguém querido fazia anos, vestimo-nos

melhor e fomos, como diplomatas

representando o nosso país, à

beira-rio, no consulado. 

comemos

 

e bebemos: festejámos, sobriamente,

claro: não se festeja de outro modo,

quando a atenção está em viagem,

pelos outros

 

estava mais alguém comigo, tu e

o aniversariante, por certo, e um

país inteiro, por exemplo, Moçambique

veio pelo Tejo dentro, à margem

 

e eu dei por mim, sozinho, esgotado

à meia noite, no Cais do Sodré

 

Publicado originalmente na revista A Sul de Nenhum Norte #2 (2011)

 

 

 

Teoria e Jogo do Fado

Março 24, 2020

(traduzido, adaptado e resumido para portugal correcto a partir de um original de Federico García Lorca, Teoría y juego del duende)

 

Desde o ano de 1994, em que comecei a percorrer, pela noite, as ruas do Bairro Alto e Santa Catarina, depois, as do Castelo, Alfama, Mouraria e, mais tarde, Madragoa, até hoje, devo ter ouvido mil razões históricas, filosóficas e literárias para explicar o destino português.

 

Com a vontade que tinha de descobrir a escuridão e tudo, confesso que todas me entediaram profundamente e nenhuma me satisfez, tal era o grau de erro com que falhavam o alvo do seu objecto.

 

Eu não queria deixar-me levar por uma história fácil e tombar na modorrenta desistência que enferma os entediados.

 

Propus-me a encontrar, de forma sensível e empenhada, e descrevê-lo o melhor que soubesse, o espírito oculto do fatídico Portugal

 

O mesmo de quem Camões perguntava “com que voz cantarei meu triste fado” ou do qual Bocage sentenciou “que eu fosse enfim desgraçado, escreveu do fado a mão”.

 

E também José Régio disse “o Fado nasceu um dia, quando o vento mal bulia e o céu o mar prolongava, na amurada dum veleiro, no peito dum marinheiro que, estando triste, cantava”.

 

Estes tons negros são o mistério, as raízes que se cravam no limo que todos conhecemos, que todos ignoramos, mas de onde nos chega o que é substancial na arte. Sons negros, diz o homem popular de Portugal e concorda com Goethe, que encontra a definição do fado ao falar de Paganini, dizendo ‘Poder misterioso que todos sentem e nenhum filósofo explica’.

 

Assim, pois, o fado é um poder e não um fazer, é um lutar e não um pensar. Ouvi dizer a um velho mestre guitarrista: “o fado está na garganta; o fado sobe por dentro desde a palma dos pés”. Ou seja, não é uma questão de faculdade, mas de verdadeiro estilo vivo; ou seja, de sangue; ou seja, de velhíssima cultura, de criação em acto.

 

Deixemos anjos, musa e duende. Essas são quimeras de povos que nunca conheceram o mar como nós, nem o céu, nem a aventura de descobrir. E de falhar. E de tentar de novo.

 

A verdadeira luta é com fado.

 

Sabem-se os caminhos para encontrar Deus, desde o modo bárbaro do eremita ao modo subtil do místico. Com uma torre como Santa Teresa ou com três caminhos como São João da Cruz. E ainda que tenhamos que chamar com a voz de Isaías “verdadeiramente tu és Deus escondido”, ao fim e ao cabo Deus manda ao que o busca as primeiras espinhas de fogo.

 

Podemos mudar de Deus, mas os caminhos são os mesmos. As danças de Rumi, a peregrinação de Ibn Arabi, a fina alegoria de Attar, sempre nos apontam para um caminho para esse algo Deus. Tudo é passagem.

 

Para encontrar o fado não há mapa, nem exercício. É um abandono. Descobre-se pela entrega, aceita-se pela perdição. Mesmo quando se finge, o fingidor cumpre o seu fado, como Pessoa que se fingiu tudo e outros e místico, mas sempre poeta. Ou como Amália, tomada das ruas para as salas do mundo, mas sempre fadista. Ou aquele empregado de escritório bebedor, que todos os dias se perde nos copos, mas sempre acredita.

 

Todos sabem que não é possível qualquer emoção sem a chegada do fado.

 

Sabe-o bem António Franco Alexandre, que dedicou ao fado castelhano um duende livro mas nele escreveu “Tal como és, assim te quero, e sempre/ diverso cada dia do que foste” ou ainda “ainda um dia terás um rosto humano/ que te possa beijar sem ser ferido”.

 

A chegada do fado pressupõe sempre uma alteração radical de todas as formas sobre velhos planos, de sensações de frescura totalmente inéditas, com uma qualidade de rosa recém-criada, de sortilégio, que chega a produzir um entusiasmo quase religioso.

 

Todas as artes são capazes de fado, mas onde se encontra mais terreno, como é natural, é na música, na dança, e na poesia declamada, já que estas necessitam de um corpo vivo que interprete, porque são formas que nascem e morrem de modo perpétuo e alçam os seus contornos sobre um presente exacto.

 

Todas as artes e também os países têm capacidade de fado, como de anjo, de musa ou de duende; e assim como a Alemanha tem, com excepções, a musa; a Itália permanentemente o anjo; e a Espanha é sempre movida pelo duende; Portugal está tomado pelo fado, esse espírito que impele e retrai, esse manso e terrível rodopio inevitável das horas, que impede concertos, planos ou preparação; essa forma de trocar a vontade própria por laudos ao cosmos.

 

Em todos os países a morte é um fim mas em Portugal há algo pior do que a morte, como diria Mêncio. Em Portugal, antes da morte, e para sempre para além dela, reina a saudade. 

 

Não temos saudades apenas do futuro, como disse o poeta Pessoa, mas chegamos mesmo a ter saudades da morte, saudando-o pelo fado, mesmo sem o sabermos.

 

Com ideia, com som, com gesto, o fado impregna o ar que respiramos e penetra os nossos poros, em luta com a saudade que temos do futuro, como perdição irremediável do que está por vir. E das feridas desta luta, que nunca  cicatrizam, está o insólito, a imaginada parte da obra do homem.

 

A virtude mágica do poema consiste em devir-se fatal para baptizar com água obscura todos o que o leiam, porque com o fado é mais fácil amar, compreender, e é certo ser-se amado, ser-se compreendido, e esta luta pela expressão e pela compreensão da expressão adquire, às vezes, em poesia as feições da saudade.

 

O fado... onde está o fado? Pelas tardias ruas vazias corre um vento espiritual que sopra com insistência sobre as cabeças dos que estão mancando quem amam, em busca de novas imagens e expressões: um vento com cheiro a sangue e a ferro, de erva cortada, de lavanda que anuncia o constante desvelar de todas as coisa fadadas.

 

Não é apenas pelos bairros de Lisboa ou pelas ondulações de Coimbra, todo o Portugal é o porto do fado. Nele não se aporta, mas combate-se. A verdadeira luta é com o fado. E nesta estranha forma de vida, apetece pedir a Lowell a sua frase para português, a única língua possível: “a escuridão, vivida honestamente, é um lugar de deslumbre e vida”. Eis, o fado; eis, pois, por que a verdadeira luta é com o fado.

 

Publicado originalmente na revista A Sul de Nenhum Norte #1 (2011)

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